A Estrangeira

Pouco antes das nove da manhã eu sai da minha sala de aula repetindo pela milésima vez aos meus alunos que lessem as perguntas atentamente antes de escreverem qualquer asneira na prova, e fui até a outra sala, onde ficaria de fiscal para outro grupo. Meu bom humor era compatível com a perspectiva de passar a próxima hora em silencio, andando de um lado para outro e vendo o desespero no rosto dos alunos que não estudaram. Sadismo é um subproduto da vida acadêmica no Oriente Médio.

‘Celulares desligados em cima da minha mesa, bolsas e cadernos no chão, somente lápis, borracha e caneta na carteira, não olhem a prova do vizinho porque e’ HARAM (pecado), blá, blá blá’. Estava terminando o meu discurso habitual quando uma moça chega apressada, e como estava quase atrasada, sentou-se no único lugar disponível – bem em frente à minha mesa. Tinha um livrinho nas mãos, e meus olhos indiscretos não conseguiram ignorar o título: L’Etranger, de Camus.

‘Li esse livro na época da faculdade, e lembro que ele mexeu tanto comigo que as vezes eu tinha que parar para respirar e colocar as ideias e os sentimentos que ele trazia em ordem na minha cabeça’, disse enquanto ela se sentava e me entregava o celular e o livrinho. ‘Eu já o li três vezes, peguei agora para ler pela quarta vez’, disse a moça sorrindo. Se fosse uma comédia romântica, era aqui que os personagens se apaixonariam. Mas era na verdade uma coisa ainda mais especial: uma jovem estudante universitária e uma professora descobrindo uma afinidade literária, num pais onde jovens lêem ainda menos do que no Brasil (pois e’). Antes de entregar as provas e o silencio reinar, ainda tive tempo de mostrar minha admiração por ela estar lendo a história original, em francês. ‘Eu morei na França, em Lyon’, explicou ela.

Durante a prova folheei o livrinho e li a primeira frase: “Aujourd’hui, maman est morte”. Li o resto do parágrafo e fiquei feliz ao ver que não tive grandes dificuldades para entender. Fiz uma anotação mental para procurar e baixar o livro no meu Kindle, desta vez em francês. O bom humor estava me deixando confiante demais, sem dúvida.

A moça foi a primeira a terminar a prova, muito antes dos outros alunos, e eu silenciosamente deslizei o livrinho de volta até a carteira dela. Notei que era a única da turma que não usava uma abaya – as vestes negras usadas pelas mulheres muçulmanas nos países do golfo pérsico. Usava um casaquinho leve e florido, uma saia longa e cobria os cabelos com um véu de cor clara.

Mais tarde, nossos caminhos se cruzaram novamente nas escadarias. Ela veio até mim e perguntou se eu era francesa. Disse que não, que meu marido era e que estávamos pensando em eventualmente nos mudarmos para a França. ‘Eu nasci e cresci em Lyon, meus pais vieram do Marrocos, mas nos mudamos aqui para Mascate há três anos’ me disse. ‘Ah, mas então você e’ francesa?’ falei sem conter a surpresa. Ela hesitou e sem parar de sorrir continuou, ‘sim, mas para eles eu não sou uma francesa de verdade’. Foi a deixa para eu perguntar algo que há tempos me incomoda: ‘Como e’ viver na França sendo muçulmana?’. Só que eu não estava preparada para a resposta. Queria que ela dissesse que a mídia gosta de sensacionalismo e que os casos de discriminação e violência fossem isolados. Mas o que ela disse, depois de um suspiro resignado, foi que a razão pela qual sua família decidiu deixar a França (o único pais que ela conhecia) foi justamente o sentimento de alienação, de não fazer parte da comunidade. Disse que a mãe, professora universitária em Lyon, não usava o hijab para evitar os olhares tortos e os comentários racistas. Que a cada ataque terrorista eles sentiam a hostilidade crescer, e que por fim resolveram deixar a família e os amigos que tinham lá em busca de uma vida com menos ódio aqui no pacato Sultanato de Omã.

Pensei na ironia do título (e do conteúdo) do livro que nos apresentou, e das escolhas linguísticas daquela moca em nossa breve conversa: ‘eu morei na França’, ‘eu nasci na França’, ‘não sou uma francesa de verdade’. Ela pareceu ver a nuvem de preocupação e tristeza que se formou sob meus olhos e mudou de assunto rapidamente. Falou sobre como chegou aqui só sabendo falar francês e que agora era fluente também em Inglês e Árabe, e que sua irmã de treze anos aprendeu essas outras duas línguas ainda mais rápido. Que sua mãe estava feliz por poder vestir o que queria, que seu pai estava tranquilo por saber que as filhas não seriam vítimas de preconceito religioso. Falou sobre os seus planos para o futuro, fazer uma pós graduação no Canada e ficar por lá. Se ofereceu para dar aulas de francês para a minha Primogênita e perguntou só poderia passar no meu escritório depois da semana de provas para ‘dizer oi’.

Me despedi dizendo que esperava que ela voltasse sim, para batermos um papo, e que esperava também que um dia ela reconsiderasse voltar para a França. Que a França fosse o pais que seus pais um dia sonharam. Só que essa última parte saiu vazia, sem convicção. Entre nós os fantasmas de um mundo surreal, de Brexits, Trumps e Le Pens separando as pessoas. Ficou o vazio da perspectiva de um futuro pior, de tudo de errado que não deveria estar acontecendo. Mas ficou no ar também uma simpatia mutua, de duas estrangeiras, duas estranhas, unidas por uma pequena história, que de tão absurda, de tão surreal, parece falar com nossos mais profundos medos e segredos. E é realmente como dizem, ver alguém lendo um livro que amamos é como ver um livro recomendando uma pessoa.

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Texto escrito e publicado em dezembro de 2017, em um outro blog que eu acabei deletando. Agora acho que não quero mais morar na França.

 

 

 

A vovó que roubava flores

 

Missa de sétimo de uma parente, igreja católica no centro de Londrina.

 

Dona Olga, minha vó, mal se continha de felicidade ao ver aquele número inédito de filhos e netos ali em frente à igreja. Desvirtuados descendentes crentes, espíritas, umbandistas, ateus, e até um muçulmano, ali, no território dela. Estava tão eufórica que eu tinha que as vezes lembra-la do motivo da reunião.

‘Dona Fulana, essa é a minha neta, que te falei!’

‘Prazer, Dona Fulana. Desse monte de gente aqui, eu sou a neta preferida’

Dona Olga fez um charminho, fingindo estar preocupada que algum outro neto pudesse ter me ouvido, mas sem intenção alguma de desmentir minha afirmação.

E então eu vejo que sua expressão muda de repente, seus olhos extasiados fixos em algo atrás de mim.

‘Ah!’ diz ela, e hipnotizada começa a andar em direção a um pé de primavera. Entro em pânico pois antes da missa foi-me dada uma única missão:

‘Cuida da vó para ela não roubar as flores do padre’

Dona Olga, católica fervorosa, alta e ágil até os meados da sua oitava década, tinha um pequeno defeito… em se tratando de flores, ignorava o conceito de propriedade privada. Pulava pequenos muros e abria portões alheios com a mesma naturalidade que entrava em terrenos baldios em busca de seus coloridos tesouros. Chegava em casa com seus chinelos embarreados, cheia de arranhões, mas com enormes buquês nas mãos. Uma vez levou uma mordida de cachorro. De vez em quando alguém reclamava, mas quase sempre ignoravam a meliante de cabelos alvos e movimentos furtivos.

‘Vó, a senhora roubou flores de novo?’

‘Não, foi aquele senhor japonês da casa da esquina que me deu. Ele estava varrendo o quintal, bati palma e pedi umas flores. E ele deu, ó.’ Mentia tão bem que as vezes acreditávamos.

Dona Olga cometeu seus pequenos delitos durante décadas, no Jardim San Remo, no conjunto Milton Gavetti, no centro de Londrina, nas chácaras perto de Cambé. ‘Não é roubo, foi Deus que fez’, dizia ao ouvir nossos protestos, enquanto colocava suas flores em potes de maionese, em copos de requeijão, em vidros de geleia.

Naquele fim de tarde em frente à igreja, corri atrás dela para salvar o galho de primavera.

‘Vó, é pecado roubar as flores da igreja!’

‘Não tô roubando, só vou pegar umas, aqui tem um monte’

‘Vó, o padre vai ver e vai ficar puto da vida!’

‘Olha a boca, menina!’ e continuava procurando o melhor lugar para quebrar o galho.

Me coloco em sua frente e suplico: ‘Vó, não pode arrancar senão morre!’

Ela para, me olha séria. Olha prá trás e vê a Dona Fulana chegando. Dá uma risadinha sem graça. Fecha a cara, me dá um tabefe na cabeça e diz prá sua amiga, indignada:

‘Ouviu isso? Ela disse que se eu arrancar a flor eu vou morrer! Cada uma…’

‘Não, vó, eu quis dizer que a flor morre!’

Mas ela já tinha pego a Dona Fulana pelo braço e se distanciava do pé de primavera. Missão cumprida, mesmo que ao custo do meu status de neta preferida.

 

Dona Olga nos deixou há alguns meses, e eu, longe, ainda não pude levar flores no seu túmulo. Nessa semana completaria 93 anos. Da minha janela vejo um pé de primavera florido e penso nela. Se suas crenças estiverem corretas, deve hoje estar rodeada de flores perfumadas. Flores que jamais serão roubadas.

 

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Abril

Meados de abril e a primavera parece enfim chegar à Moscou. O céu ensaia um azulzinho tímido ainda, mas o sol já brilha um pouco mais animado. Um verdinho aparece aqui e ali, nas plantas brotando no jardim, e nas cebolas brotando no balcão da cozinha. Há uns dez dias a temperatura se mantêm positiva e estou um pouco menos ranzinza. Pasmem, até voltei a escrever! Mas ainda é cedo para guardar os casacões e as botas, pois ano passado a última neve só veio em maio – a coisa aqui é, literalmente, ruça (sim, com cê cedilha).

No verão (do hemisfério norte) de 2014, depois de quase cinco anos no Oriente Médio, todos os então três membros da Família Apátrida acharam o máximo a ideia de morar em um lugar que nunca haviam sequer imaginado visitar. Já me imaginava toda elegante usando casacos acinturados, luvas de couro e echarpes de lã (porque roupas de inverno emagrecem) e tomando cappuccinos em charmosos cafés moscovitas com paisagens nevadas ao fundo. Imaginava que ia enfim usar maquiagem pois lá ela não derreteria um minuto depois de sair de casa. O Marido estava empolgado com o novo cargo e com os novos desafios, e com o tanto de bacon que ele iria enfim poder comer. E a Primogênita não sabia o que esperar, mas parecia confiar na animação geral. O que ninguém desconfiava, era que um certo aglomerado de células muito especial veio junto, e que a sua existência daria o tom das experiências que estavam por vir.

Moscou me viu de queixo caído trazer o teste de gravidez para a sala onde o Marido e a Primogênita esperavam ansiosos. Os lixos de Dubai viram tantos testes negativos que eles já tinham perdido as esperanças. Moscou viu o começo de uma mudança de vida que ia muito além de trocar o deserto pela neve. Viu a Primogênita chorar copiosamente de emoção ao ver que seria enfim uma irmã mais velha (na época ela achava que era um upgrade). Moscou me ensinou que lágrimas e secreções nasais congelam quase que imediatamente se produzidos em um frio de -15 C, quando saí da clínica com a confirmação de que dentro de mim, uma pequenina futura Mulher se formava forte e saudável. Mas os meses foram passando e Moscou não viu a Bebê nascer. Por questões de logística, preferiu-se que a Bebê nascesse longe da Praça Vermelha, e sim como uma legítima Pé Vermelho no interior do Paraná.

 …

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Arquivo pessoal. O Marido, a Primogênita e a Caçula em Moscou, em abril de 2016.

Fuçando nos meus arquivos encontrei esse texto inacabado, escrito há um ano quando morávamos em Moscou. Não me lembrava de tê-lo escrito, e muito menos de como iria concluí-lo. Imagino que estávamos na mesma situação de agora: nos preparando para partir, mas sem saber ainda exatamente prá onde…

Abril de 2017 e aqui estamos em Mascate, gratos pelas experiências mas ansiosos para partir.

Em abril de 2016 estávamos congelados em Moscou, sem saber nosso próximo destino.

Abril de 2015 nos via em Londrina esperando a caçula nascer.

Em abril de 2014 vivíamos a vida loca em Dubai.

Abril de 2013 viu o Marido e eu fugindo para casar em segredo em Las Vegas, na Little White Chapel (aquela do Elvis).

Em abril de 2012 eu pedia a conta de um emprego horrível e fazia as malas para passar uma temporada na França, inebriada de paixão.

Abril de 2011 eu terminava o mestrado e realizava o antigo sonho de lecionar em uma faculdade.

Abril de 2010 me via chegando em Mascate pela primeira vez, trazendo a Primogênita nos braços e um ex-marido a tiracolo. O mesmo mês via o Marido também chegando como expatriado pela primeira vez, não muito longe daqui, em Abu Dhabi.

E depois as memórias se perdem, irrelevantes. Onde estaremos em abril de 2018? Em Londrina? Em Marseille? Não ficarei surpresa se estiver seja lá onde for e morrendo de vontade de fazer as malas e fugir de novo. Mas nesse momento, cansada de tantas mudanças, gostaria de me imaginar criando raízes, cuidando de plantas e tendo um gato (ou cachorro). Tanto se fala do friozinho na barriga na hora de deixar a terra natal e partir mundo afora… mas não é diferente do medo de voltar para um mundo que mudou sem a nossa presença. É infinitamente mais fácil ser um estranho mundo afora do que ser um estranho no próprio ninho. Que outros meses de abril nos encontrem felizes, onde quer que estejamos…

 

A Noite

21.30. Hora de ir prá cama. Olho as meninas dormindo mais uma vez, vou para o quarto, deito e me aconchego no Marido.

21.33. O Marido já dorme profundamente. Incrível!

21.40. Esqueci de preparar a mamadeira com água para a Caçula. Vou para a cozinha e na volta aproveito para checar a fralda mais uma vez. Tudo em ordem, volto para a cama.

22.00. A Primogênita aparece do lado da minha cama, de camisola branca e cabelo desgrenhado cobrindo o rosto, parecendo coisa de filme de terror. Levo o maior susto e grito. Ela pede para ir dormir com a irmã e eu digo ok. O Marido continua dormindo.

22.15. Tomara que a bebê durma pelo menos até as 2 da manhã. Quase quatro horas seguidas de sono seria um sonho… zzzzzzz…

23.30. Mamaaaaaaaaa! Estava dormindo tão profundamente que achei que já era de manhã. Pelo menos ainda é ‘cedo’. Vou para o quarto da Caçula e vejo a Primogênita dormindo espaçosamente bem no meio do colchão, e a bebê atravessada em cima da cabeça da irmã. Ajeito as duas, e como continuam dormindo, volto prá minha cama.

00.15. Buaaaaaaaaaa! Mamaaaaaaaaaa! Lá vou eu de novo. Ofereço água, não quer. Chora baixinho, resmunga. Deito junto no colchão, afago suas costas. Ela está cansada, quer dormir, mas algo a está incomodando. Pego-a no colo e levo para o quarto da Primogênita. As noites em que passo pelas três camas são as piores.

… Chora, acorda, chora, dou beijo, canto, esfrego as costas, dorme, acorda. Até que solta uns pums e parece dormir de vez.

2.00. Volto para minha cama e zzzzz…

2.50. OOOOOOOOINC! Jezuismariajosé! Pulo da cama com o ronco do Marido! Não é possível! A Caçula lá no outro quarto também acorda e chora. Com a delicadeza de um elefante, viro o Marido de lado – que continua dormindo – pego o meu travesseiro e fecho a porta, pois sei que não voltarei para minha própria cama mais.

3.00. Dorme, bebê, dorme. Pelamordedeus, dorme… Ah, a mamadeira de água ficou no outro quarto. Busco, volto, troco a fralda. Ela bebe um pouquinho e dormimos juntas.

4.10. Allaaaaaaaaaaahu Akabar! E lá vem o Adhan. Hora dos muçulmanos fazerem sua primeira prece. Allah é grande e meu sono também. Todos continuam dormindo em casa. Ok, se eu conseguir dormir agora ainda terei duas horas de sono até o alarme despertar.

4.30. Vou ter que dirigir mais de 100 km hoje, terei que corrigir quase 100 redações. Preciso dormir, preciso dormir. Pelo menos mais um pouquinho… zzzz

5.15. Mama, mama, mama, mama! Pelo tom energético já sei que é game over. Sem chance de voltar a dormir. Alcanço o tablet e ponho a Galinha Pintadinha. Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado…

5.30. Cansou da Galinha Pintadinha. Quer acordar e brincar com o resto da família. Nada mais justo. Vai até o nosso quarto, abre a porta e vai cantarolando: Papa, papa, papa, papa! Fico olhando. O Marido acorda, dá um sorriso, beija a bebê, olha o relógio, se espreguiça e resmunga:

‘Estou tão cansado…’

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Como consumir menos carne, mesmo quando sua família adora um churrasco

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Se tem um grupo de pessoas que eu admiro muito são os vegetarianos e veganos. Quanta disciplina e força de vontade para seguir seus princípios num mundo ainda tão pouco interessado em sustentabilidade e benevolência para com os animais. Dizer nunca mais para carne é difícil. Muito difícil! E quando o resto da família não faz questão de evitar, ou ainda, quando o resto da família ama comer carne, a hora das refeições pode virar um momento frustrante para todos os envolvidos. E se você, irresponsavelmente, acabar no hospital com uma anemia descrita pela médica como ‘só antes vista no tempo de residente numa vila paupérrima da Índia’, a pressão familiar para encher o prato de carne aumentará. Mas durante os últimos anos conseguimos encontrar um equilíbrio no nosso consumo, reduzido à mais ou menos 2 frangos e dois quilos de carne por mês, para nossa família de quatro pessoas (não inclui refeições feitas fora de casa). Abaixo, algumas dicas para reduzir o consumo de carne que funcionaram com a gente:

  • Das seis refeições que fazemos juntos em casa por semana, três são vegetarianas e três incluem carne. Quando comemos fora, cada um come o que quer. No almoço, a Primogênita come na cantina da escola (que serve carne), e o Marido come ou o que sobrou da janta quando tem, ou qualquer coisa perto do escritório dele.
  • Faço um frango inteiro durar três refeições, para nós quatro: uma com as coxas e sobrecoxas, uma com o peito, e a outra com a carcaça e o resto da carne, que geralmente vira base para sopa.
  • Faço um quilo de carne também durar três refeições: um panelão de molho de tomate com carne moída, que depois divido em três porções e uso no macarrão, na lasanha, no escondidinho. Ou uma receita de Boeuf Bourguignon com uma proporção maior de legumes, que dá bastante molho. Divido em três partes e congelo duas no dia que faço. Assim, a quantidade de carne consumida em cada prato é consideravelmente menor que a porção ‘padrão’, mas ainda está lá.
  • Como a quantidade de carne é reduzida, vemos ela mais como um acompanhamento do que como prato principal. É mais fácil adaptar as proporções do que ver ela desaparecer de vez.
  • Sempre que encontro compro frango free range, aqueles que vivem livres antes de serem abatidos. Em Dubai achava fácil, mas infelizmente aqui em Mascate é raro encontrar. Custam bem mais caro, mas acredito que o mínimo que podemos fazer é estimular essa indústria (sorry, Sadia).
  • Um truquezinho psicológico: um sobrinho adorou uma batata com salsinha que eu fiz, e desde então eu chamo aquela receita de ‘Batata do Théo’. A Primogênita então quis porque quis ter um prato vegetariano especial dela, e por fim acabou escolhendo uma massa com molho de brócolis, que só pode ser chamada de ‘Penne da Primogênita’. Assim, por algum motivo, parece que o dia que tem o ‘Risoto de abobrinha da Mamãe’, o ‘Ratatouille do Papa’ ou a ‘Torta de legumes da vovó’, o jantar parece extra especial. A Caçula ainda não tem um prato dela pois ainda não sabe se pronunciar.
  • Aproveitamos para experimentar pratos vegetarianos de países diferentes, principalmente indianos pois existe uma comunidade grande aqui.
  • Outro truque (ou golpe baixo, segundo o Marido), é que eu só faço sobremesas no dia das refeições vegetarianas. A ideia é desavergonhadamente clara no propósito de alegrar as noites sem carne.
  • Conversamos bastante sobre o porquê de estarmos fazendo isso. A carne no nosso prato, e a ausência dela, nos convida a falar sobre Gratidão, sobre Ética, sobre Sustentabilidade, sobre Direitos e Deveres, sobre Nutrição, sobre Crueldade. Sobre a real vontade de comer uma picanha inteira de vez em quando, e sobre consumo consciente. Sobre a necessidade de sairmos da nossa zona de conforto e darmos passos, mesmo que pequenos, em direção à um mundo melhor.
  • E quando (raramente) reclamam eu ameaço nunca mais fazer nenhum tipo de carne, digo que vou fazer minhas malas e ir embora, ou que vou me jogar da janela, ou que a cozinha está aberta para quem quiser cozinhar, ou que quem não quiser comer que vá dormir com fome e espere a próxima refeição no dia seguinte. Super democrático e sempre funciona.

E bora fazer um creme de alho porró e batata para a janta!

Brasileiras Pelo Mundo – Lecionando em Omã

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Saiu meu primeiro texto para o Brasileiras Pelo Mundo, sobre o mercado de trabalho para professores de inglês aqui em Omã. Fiz questão de colocar ênfase nos aspectos negativos, mas não posso negar que a vida aqui e’ tranquila. Sentirei saudades quando formos embora…

http://www.brasileiraspelomundo.com/oma-lecionando-no-oriente-medio-561652577

Conto Árabe – O Jovem que carregava seus pais

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Aqui em Omã o Dia das Mães é celebrado em março. Para comemorar a data aqui vai mais um conto do folclore Omani, baseado no livro Omani Folk Tales, de Hatim Al Taie e Joan Pickersgill, e nas versões dos meus alunos.

O Jovem que carregava seus pais

Há muitos e muitos anos, vivia no pequenino vilarejo de Amerat, próximo a Mascate, um bondoso jovem. Seus pais eram muito velhos e frágeis, e o rapaz tudo fazia pelo seu bem-estar. Eles eram tão fracos e debilitados que o jovem os levava junto de si por onde quer que fosse, em grandes tapetes que ele tecia com folhas de palmeiras, um para cada. Amarrava um jugo nos seus ombros e pescoço para aguentar o peso, e levava os pais, um de cada lado, enquanto cuidava dos seus afazeres.

Um certo dia, ouviu o casal falando baixinho, e horrorizado descobriu que seus pais estavam tramando sua morte, planejando come-lo em seguida. Naquele momento percebeu que seus pais eram sa’hara, feiticeiros perigosos. Desolado, o jovem chorou sem saber o que fazer. Foi então que decidiu ir até a cidade de Medina, pedir conselho ao grande profeta Maomé. Deixou seus pais sob os cuidados de outros parentes, cuidando para que eles não percebessem que ele havia descoberto seu segredo, e juntou-se a uma caravana rumo à grande Medina.

Em lá chegando, foi imediatamente a procura do profeta e contou-lhe sua história. Maomé ouviu suas palavras com cuidado, pensou, e enfim disse ao jovem:

“Faça o que quiser com seu pai. Mate-o até, caso ele venha ameaça-lo e atentar contra sua vida. Mas sua mãe, não importa o que ela faça, seja matá-lo, comê-lo ou seja lá o que for, jamais toque em um fio sequer de seus cabelos. O paraíso está aos pés de sua mãe.

O profeta ainda falou ao jovem que o vínculo com sua mãe era como o cordão umbilical, tão forte que jamais poderia seria cortado.

 

Nota da tradutora que vos escreve: Esses contos Omanis são deliciosos de ler, seguindo o estilo das Mil e Uma Noites. Infelizmente (para os nossos padrões atuais) a maioria acaba assim, sem um desfecho claro. Perguntei aos meus alunos o que o jovem fez ao voltar para Omã e eles disseram que não importa, o que vale é a mensagem do profeta Maomé sobre nosso dever para com nossas mães – mesmo que elas queiram nos comer.