A Estrela do Mar

QUINTA-FEIRA, 30 DE JUNHO DE 2011

Hoje me dei um presente. Saí de casa ao som do adhan, a chamada das mesquitas para a primeira prece do dia, e fui ver o sol nascer na praia. Não via um alvorecer desde a adolescência, e pela primeira vez na vida fiz isso sozinha.

O céu se transformava rapidamente de um azul escuro e lustroso para uma paleta pastel de rosas e salmão. Acho que esperava um amanhecer de cores mais alegres e vibrantes, como o pôr do sol aqui no Oriente Médio. Mas logo percebi minha tolice, valorizando o drama ao invés da suavidade e da paz. Procurando defeito na perfeição.

Entre as incontáveis conchinhas trazidas pela maré, me deparei com uma solitária estrela do mar. Não pude deixar de sorrir ao lembrar da histórinha da imprudente estrela do mar que se apaixonou por uma estrela do céu. Será que é verdade que se cortarmos uma estrela do mar ao meio, ela se regenera e acaba por se tornar duas? Nas minhas mãos, a criaturinha mexia seus inúmeros pézinhos desesperadamente, e eu me senti envergonhada pela tentação momentânea de quebrá-la. A vida já é difícil o suficiente quando se é inteira. Coloquei-a de volta ao chão e em segundos ela já estava debaixo de uma fina camada de areia, protegida dos perigos que a cercam.

Estrelinha esperta. Não ignora o medo como nós humanos fazemos. Mas se por um lado debaixo da areia ela está segura, por outro também perde a chance de ver a beleza do mar e do céu. Será que vale a pena, estrelinha?

Até que me dei conta de que a natureza estava ali me oferecendo um de seus mais belos espetáculos enquanto eu olhava para a areia, melancolicamente praticando minha filosofia barata. Nesse momento, uma frase de Emmanuel que ouvi há anos e que estava guardada no fundo de alguma gaveta do meu subconsciente me veio a mente com tanta força que senti me coração palpitar:

“Quem disser que Deus desanimou de amparar a Humanidade, medite na beleza do Sol, em cada alvorecer.”

E eu que aprendi a não dividir minhas angústias com ninguém, em parte pelo receio de que elas se tornem mais reais ao verbalizá-las, em parte por não querer preocupar os que me amam, me senti abraçada e amparada por essa ideia.

Confesso que não rezava há anos, por vergonha das minhas fraquezas e das minhas pretensões (isso em si mais um sinal do meu orgulho), mas ali diante do firmamento mágico de Omã, murmurei uma prece de agradecimento e de desculpas.

Fechei os olhos e ouvi o som das ondas como palavras de apoio, senti a areia entre meus dedos como uma carícia, e vi o brilho do sol refletido no mar como um sorriso sereno a me assegurar que tudo vai ficar bem, e que assim como a estrelinha do mar, todos temos dentro de nós o que é preciso para nos regenerar e renascer ainda mais fortes.

Minha companheirinha hoje de manhã.
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Encontrei esse texto que havia escrito em 2011 por acaso. Nem lembro o que tinha acontecido mas parece que eu estava meio borocoxô. Bom ver que nessa vida, tudo passa… 🙂

Pedaços do cotidiano Londrinense

Londrina, 2017

Observações de uma Londrinense redescobrindo sua terra natal

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Super Muffato Gourmet do Shopping Aurora. Na entrada do mercado uma pequena comoção. Seguranças falando no walkie talkie, funcionários cochichando, e grupinhos de curiosos já se formando. Todos parecem olhar para um rapaz que se demorava em frente à máquina de ler preços. Esse parecia esperar um amigo mais ao fundo da loja.
‘Devem ter pego aquele uísque de 15 mil’, disse um curioso. Outros seguranças chegam e fazem uma barreira do lado de fora, esperando os meninos saírem. Eu que sou curiosa, mas nem tanto, continuei meu caminho e fui embora. Depois fiquei sabendo que os rapazes suspeitos foram recepcionados pelos seguranças assim que saíram da loja, e levados novamente lá para dentro. Em seus bolsos e jaquetas, lâminas de barbear e outras quinquilharias. Coisinhas muito mais baratas do que o tal do uísque, que aliás  continua lá, a espera de algum comprador endinheirado.

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Idoso pisa em uma pedra solta no bosque do centro de Londrina e cai. Braço ensanguentado, pele arranhada, pertences espalhados pelo chão.
‘Mas ninguém parou para te ajudar, para perguntar se estava bem?’, pergunto.
‘Ninguém. Só desviavam para não passar por cima de mim’, disse ele, abaixando os olhos e sorrindo sem graça. Londrina me pareceu muito menos linda hoje.

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Estava passando pela avenida Duque de Caxias e resolvi parar em uma quitanda. Daquelas que a gente põe tudo numa bacia e bate papo furado com o dono. Daquelas que lembram infâncias longínquas. Comprei morangos, poncã, duas variedades de maça, bananas (tava 1.99 o quilo), ameixas, batatinhas minúsculas e um maço de cebolinhas. A conta deu 35 reais e 85 centavos. Sai de lá carregando 4 sacolas e saltitando de felicidade.

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O anúncio de até 75% de desconto me fez dar uma passadinha na Tok Stok. Não comprei nada pois nem assim as coisas lindas de lá cabem no meu orçamento, mas valeu por essa foto especialíssima. Pode até ser que o c seja de ‘see’ e o u de ‘you’, mas que ficou estranho, ficou…

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Chego ao balcão para fazer o pedido e pego o fim da conversa entre duas funcionárias, uma bem novinha e a outra já perto de se aposentar:
— (…) mas precisava deixar tudo daquele jeito?
— O negócio é que cliente é cliente e no fim das contas são eles que pagam o seu salário no fim do mes. Então pare de reclamar.
As duas se viram ao mesmo, retribuem o meu sorriso e anotam meu pedido, que logo chega impecável. Antes de sair, me esmero na limpeza da minha mesa, mesmo com aqueles guardanapos que só espalham a gordura em vez de limpar.

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Sempre me sinto a própria VIP ao andar no tarmac até o avião no aeroporto de Londrina. Melhor fazer de conta que estamos prestes a embarcar num jatinho do que pensar na infra-estrutura risível do local. Pronta para decolar naquele voo das 5.35 da madrugada, abro a revista de bordo e vejo esse anúncio da Gol (abaixo).  A risadinha abafada do Marido prova que eu não fui a única a ver o duplo sentido ali. O casal ao lado também ri com a gente. Parabéns pelos 10 cm a mais, Gol!

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Sempre, sempre que vou ao Catuaí ou ao Shopping Aurora, as pessoas me chamam de senhora, e ao meu marido de moço. Por outro lado, no calçadão ou no centro, sempre me chamam de moça e a ele de senhor. Por que será?

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“Coloque seu lixo no seu… se não couber deixe na tua casa e não aqui. Obrigado”

Ah, mais um exemplo da amabilidade, gentileza e consideração para com o próximo do povo londrinense. Imagino o quanto de lixo o dono da caçamba já deve ter tido que limpar até chegar ao ponto de escrever esse recadinho simpático. Tirei a foto na rua Jorge Velho, no centro de Londrina.

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Marido e eu visitando uma escola para matricular a Primogênita. A funcionária orgulhosa nos mostra tudo, simpaticíssima, fala do método, e lá pelas tantas solta:

-O diferencial da nossa escola, é que… (hesita um pouquinho sem deixar de sorrir) é que é uma escola para gente rica.

Marido me olha sem acreditar no que ouviu. Eu delicadamente interrompo a moça:

-Nós não somos ricos.

-Ah, sim, o que eu quero dizer é que a mensalidade é cara, nem todo mundo consegue pagar…

Até hoje tento, sem sucesso, entender a intenção da moça ao fazer o tal comentário. De certeza, só que os tais ”choques culturais” parecem muito mais difíceis quando sentidos na nossa própria casa.

Gleba Palhano Poética

Hoje aproveitei a boa vontade do Marido em ficar com as meninas e  fui caminhando para um compromisso pela manhã, pouco antes de mais um dilúvio londrinense. Observava o vai e vem dos moradores e pensava em como a minha terra natal agora me parece tão estranha, tão ”exótica”. As pessoas eram assim tão simpáticas, sempre dando bom dia a estranhos quando eu morava no centro de Londrina? Ou será uma particularidade da Gleba Palhano? Ou eu é que nunca tinha prestado atenção antes de partir? Continuei caminhando e logo vi uma plaquinha num gramado de prédio que me fez rir. Quando vi a segunda e a terceira resolvi voltar para tirar foto da primeira também para poder compartilhar aqui essas pérolas da poesia com temática fecal (todas na rua Eurico Humming):

‘Não deixe no chão o que é do seu cão’

‘Vizinho legal recolhe as fezes do seu animal’

‘Seja um bom cidadão, recolha o cocô do seu cão’ (esse com o nome do prédio embaixo, o que por alguns instantes míopes me fizeram pensar que era o nome do orgulhoso autor da rima).

Enquanto tirava o celular da bolsa uma moça aparece puxada por seu cachorrinho, de uma daquelas raças caríssimas e aparentemente obrigatórias aqui nesse bairro. O cachorrinho começa a circular se preparando para evacuar, ali a um metro de mim e a dois metros da plaquinha. A moça sorri meio sem graça e rapidamente tira uma sacola plástica do bolso, obviamente para me mostrar que ela vai limpar o cocô depois. Quando ela percebe que eu estou tirando foto da plaquinha anti-fezes caninas, começa a agitar a sacola até fazer barulho, exalando desconforto com a situação.

O cachorrinho, indiferente às plaquinhas espirituosas e à aflição da sua dona, se contorce, visivelmente constipado. Eu me enrolo um pouco, me divertindo com a situação bizarra e me dando mentalmente um tapinha nas costas por ter batido o pé e insistido que um gato seria o pet ideal para nossa família – dá muito menos trabalho. Mas logo fico com vergonha do meu sadismo e me apresso a sair, fazendo algum comentário sobre o toró prestes a desabar e quase escuto o suspiro de alívio da moça. Mando boas energias para o cachorrinho ”ressequido” (como dizia minha vó) e sigo meu caminho. Olho para o céu e desisto de me aventurar por outras ruas a procura de mais poesia glebense. Ou seria glebapalhense? Ou ainda glebapalhanoense?

Alguns minutos depois a chuva cai com força e os habituais personagens do bairro desaparecem. As moças saradas com roupas de ginástica na rua, os jovens pais com seus bebês em carrinhos modernos, os tiozões voltando encharcados de suor do Igapó, os adolescentes resmungando ao carregar sacolas cheias de compras do Super Muffato do Aurora. E como num passe de mágica, os cachorrinhos caros passam para os colos dos donos e somem rapidamente adentro dos prédios. A chuva logo começa a enlamear os jardinzinhos impecáveis e eu, já pingando, penso que isso sim é poesia glebialística.

A Estrangeira

Pouco antes das nove da manhã eu sai da minha sala de aula repetindo pela milésima vez aos meus alunos que lessem as perguntas atentamente antes de escreverem qualquer asneira na prova, e fui até a outra sala, onde ficaria de fiscal para outro grupo. Meu bom humor era compatível com a perspectiva de passar a próxima hora em silencio, andando de um lado para outro e vendo o desespero no rosto dos alunos que não estudaram. Sadismo é um subproduto da vida acadêmica no Oriente Médio.

‘Celulares desligados em cima da minha mesa, bolsas e cadernos no chão, somente lápis, borracha e caneta na carteira, não olhem a prova do vizinho porque e’ HARAM (pecado), blá, blá blá’. Estava terminando o meu discurso habitual quando uma moça chega apressada, e como estava quase atrasada, sentou-se no único lugar disponível – bem em frente à minha mesa. Tinha um livrinho nas mãos, e meus olhos indiscretos não conseguiram ignorar o título: L’Etranger, de Camus.

‘Li esse livro na época da faculdade, e lembro que ele mexeu tanto comigo que as vezes eu tinha que parar para respirar e colocar as ideias e os sentimentos que ele trazia em ordem na minha cabeça’, disse enquanto ela se sentava e me entregava o celular e o livrinho. ‘Eu já o li três vezes, peguei agora para ler pela quarta vez’, disse a moça sorrindo. Se fosse uma comédia romântica, era aqui que os personagens se apaixonariam. Mas era na verdade uma coisa ainda mais especial: uma jovem estudante universitária e uma professora descobrindo uma afinidade literária, num pais onde jovens lêem ainda menos do que no Brasil (pois e’). Antes de entregar as provas e o silencio reinar, ainda tive tempo de mostrar minha admiração por ela estar lendo a história original, em francês. ‘Eu morei na França, em Lyon’, explicou ela.

Durante a prova folheei o livrinho e li a primeira frase: “Aujourd’hui, maman est morte”. Li o resto do parágrafo e fiquei feliz ao ver que não tive grandes dificuldades para entender. Fiz uma anotação mental para procurar e baixar o livro no meu Kindle, desta vez em francês. O bom humor estava me deixando confiante demais, sem dúvida.

A moça foi a primeira a terminar a prova, muito antes dos outros alunos, e eu silenciosamente deslizei o livrinho de volta até a carteira dela. Notei que era a única da turma que não usava uma abaya – as vestes negras usadas pelas mulheres muçulmanas nos países do golfo pérsico. Usava um casaquinho leve e florido, uma saia longa e cobria os cabelos com um véu de cor clara.

Mais tarde, nossos caminhos se cruzaram novamente nas escadarias. Ela veio até mim e perguntou se eu era francesa. Disse que não, que meu marido era e que estávamos pensando em eventualmente nos mudarmos para a França. ‘Eu nasci e cresci em Lyon, meus pais vieram do Marrocos, mas nos mudamos aqui para Mascate há três anos’ me disse. ‘Ah, mas então você e’ francesa?’ falei sem conter a surpresa. Ela hesitou e sem parar de sorrir continuou, ‘sim, mas para eles eu não sou uma francesa de verdade’. Foi a deixa para eu perguntar algo que há tempos me incomoda: ‘Como e’ viver na França sendo muçulmana?’. Só que eu não estava preparada para a resposta. Queria que ela dissesse que a mídia gosta de sensacionalismo e que os casos de discriminação e violência fossem isolados. Mas o que ela disse, depois de um suspiro resignado, foi que a razão pela qual sua família decidiu deixar a França (o único pais que ela conhecia) foi justamente o sentimento de alienação, de não fazer parte da comunidade. Disse que a mãe, professora universitária em Lyon, não usava o hijab para evitar os olhares tortos e os comentários racistas. Que a cada ataque terrorista eles sentiam a hostilidade crescer, e que por fim resolveram deixar a família e os amigos que tinham lá em busca de uma vida com menos ódio aqui no pacato Sultanato de Omã.

Pensei na ironia do título (e do conteúdo) do livro que nos apresentou, e das escolhas linguísticas daquela moca em nossa breve conversa: ‘eu morei na França’, ‘eu nasci na França’, ‘não sou uma francesa de verdade’. Ela pareceu ver a nuvem de preocupação e tristeza que se formou sob meus olhos e mudou de assunto rapidamente. Falou sobre como chegou aqui só sabendo falar francês e que agora era fluente também em Inglês e Árabe, e que sua irmã de treze anos aprendeu essas outras duas línguas ainda mais rápido. Que sua mãe estava feliz por poder vestir o que queria, que seu pai estava tranquilo por saber que as filhas não seriam vítimas de preconceito religioso. Falou sobre os seus planos para o futuro, fazer uma pós graduação no Canada e ficar por lá. Se ofereceu para dar aulas de francês para a minha Primogênita e perguntou só poderia passar no meu escritório depois da semana de provas para ‘dizer oi’.

Me despedi dizendo que esperava que ela voltasse sim, para batermos um papo, e que esperava também que um dia ela reconsiderasse voltar para a França. Que a França fosse o pais que seus pais um dia sonharam. Só que essa última parte saiu vazia, sem convicção. Entre nós os fantasmas de um mundo surreal, de Brexits, Trumps e Le Pens separando as pessoas. Ficou o vazio da perspectiva de um futuro pior, de tudo de errado que não deveria estar acontecendo. Mas ficou no ar também uma simpatia mutua, de duas estrangeiras, duas estranhas, unidas por uma pequena história, que de tão absurda, de tão surreal, parece falar com nossos mais profundos medos e segredos. E é realmente como dizem, ver alguém lendo um livro que amamos é como ver um livro recomendando uma pessoa.

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Texto escrito e publicado em dezembro de 2017, em um outro blog que eu acabei deletando. Agora acho que não quero mais morar na França.

 

 

 

A vovó que roubava flores

 

Missa de sétimo de uma parente, igreja católica no centro de Londrina.

 

Dona Olga, minha vó, mal se continha de felicidade ao ver aquele número inédito de filhos e netos ali em frente à igreja. Desvirtuados descendentes crentes, espíritas, umbandistas, ateus, e até um muçulmano, ali, no território dela. Estava tão eufórica que eu tinha que as vezes lembra-la do motivo da reunião.

‘Dona Fulana, essa é a minha neta, que te falei!’

‘Prazer, Dona Fulana. Desse monte de gente aqui, eu sou a neta preferida’

Dona Olga fez um charminho, fingindo estar preocupada que algum outro neto pudesse ter me ouvido, mas sem intenção alguma de desmentir minha afirmação.

E então eu vejo que sua expressão muda de repente, seus olhos extasiados fixos em algo atrás de mim.

‘Ah!’ diz ela, e hipnotizada começa a andar em direção a um pé de primavera. Entro em pânico pois antes da missa foi-me dada uma única missão:

‘Cuida da vó para ela não roubar as flores do padre’

Dona Olga, católica fervorosa, alta e ágil até os meados da sua oitava década, tinha um pequeno defeito… em se tratando de flores, ignorava o conceito de propriedade privada. Pulava pequenos muros e abria portões alheios com a mesma naturalidade que entrava em terrenos baldios em busca de seus coloridos tesouros. Chegava em casa com seus chinelos embarreados, cheia de arranhões, mas com enormes buquês nas mãos. Uma vez levou uma mordida de cachorro. De vez em quando alguém reclamava, mas quase sempre ignoravam a meliante de cabelos alvos e movimentos furtivos.

‘Vó, a senhora roubou flores de novo?’

‘Não, foi aquele senhor japonês da casa da esquina que me deu. Ele estava varrendo o quintal, bati palma e pedi umas flores. E ele deu, ó.’ Mentia tão bem que as vezes acreditávamos.

Dona Olga cometeu seus pequenos delitos durante décadas, no Jardim San Remo, no conjunto Milton Gavetti, no centro de Londrina, nas chácaras perto de Cambé. ‘Não é roubo, foi Deus que fez’, dizia ao ouvir nossos protestos, enquanto colocava suas flores em potes de maionese, em copos de requeijão, em vidros de geleia.

Naquele fim de tarde em frente à igreja, corri atrás dela para salvar o galho de primavera.

‘Vó, é pecado roubar as flores da igreja!’

‘Não tô roubando, só vou pegar umas, aqui tem um monte’

‘Vó, o padre vai ver e vai ficar puto da vida!’

‘Olha a boca, menina!’ e continuava procurando o melhor lugar para quebrar o galho.

Me coloco em sua frente e suplico: ‘Vó, não pode arrancar senão morre!’

Ela para, me olha séria. Olha prá trás e vê a Dona Fulana chegando. Dá uma risadinha sem graça. Fecha a cara, me dá um tabefe na cabeça e diz prá sua amiga, indignada:

‘Ouviu isso? Ela disse que se eu arrancar a flor eu vou morrer! Cada uma…’

‘Não, vó, eu quis dizer que a flor morre!’

Mas ela já tinha pego a Dona Fulana pelo braço e se distanciava do pé de primavera. Missão cumprida, mesmo que ao custo do meu status de neta preferida.

 

Dona Olga nos deixou há alguns meses, e eu, longe, ainda não pude levar flores no seu túmulo. Nessa semana completaria 93 anos. Da minha janela vejo um pé de primavera florido e penso nela. Se suas crenças estiverem corretas, deve hoje estar rodeada de flores perfumadas. Flores que jamais serão roubadas.

 

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Abril

Meados de abril e a primavera parece enfim chegar à Moscou. O céu ensaia um azulzinho tímido ainda, mas o sol já brilha um pouco mais animado. Um verdinho aparece aqui e ali, nas plantas brotando no jardim, e nas cebolas brotando no balcão da cozinha. Há uns dez dias a temperatura se mantêm positiva e estou um pouco menos ranzinza. Pasmem, até voltei a escrever! Mas ainda é cedo para guardar os casacões e as botas, pois ano passado a última neve só veio em maio – a coisa aqui é, literalmente, ruça (sim, com cê cedilha).

No verão (do hemisfério norte) de 2014, depois de quase cinco anos no Oriente Médio, todos os então três membros da Família Apátrida acharam o máximo a ideia de morar em um lugar que nunca haviam sequer imaginado visitar. Já me imaginava toda elegante usando casacos acinturados, luvas de couro e echarpes de lã (porque roupas de inverno emagrecem) e tomando cappuccinos em charmosos cafés moscovitas com paisagens nevadas ao fundo. Imaginava que ia enfim usar maquiagem pois lá ela não derreteria um minuto depois de sair de casa. O Marido estava empolgado com o novo cargo e com os novos desafios, e com o tanto de bacon que ele iria enfim poder comer. E a Primogênita não sabia o que esperar, mas parecia confiar na animação geral. O que ninguém desconfiava, era que um certo aglomerado de células muito especial veio junto, e que a sua existência daria o tom das experiências que estavam por vir.

Moscou me viu de queixo caído trazer o teste de gravidez para a sala onde o Marido e a Primogênita esperavam ansiosos. Os lixos de Dubai viram tantos testes negativos que eles já tinham perdido as esperanças. Moscou viu o começo de uma mudança de vida que ia muito além de trocar o deserto pela neve. Viu a Primogênita chorar copiosamente de emoção ao ver que seria enfim uma irmã mais velha (na época ela achava que era um upgrade). Moscou me ensinou que lágrimas e secreções nasais congelam quase que imediatamente se produzidos em um frio de -15 C, quando saí da clínica com a confirmação de que dentro de mim, uma pequenina futura Mulher se formava forte e saudável. Mas os meses foram passando e Moscou não viu a Bebê nascer. Por questões de logística, preferiu-se que a Bebê nascesse longe da Praça Vermelha, e sim como uma legítima Pé Vermelho no interior do Paraná.

 …

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Arquivo pessoal. O Marido, a Primogênita e a Caçula em Moscou, em abril de 2016.

Fuçando nos meus arquivos encontrei esse texto inacabado, escrito há um ano quando morávamos em Moscou. Não me lembrava de tê-lo escrito, e muito menos de como iria concluí-lo. Imagino que estávamos na mesma situação de agora: nos preparando para partir, mas sem saber ainda exatamente prá onde…

Abril de 2017 e aqui estamos em Mascate, gratos pelas experiências mas ansiosos para partir.

Em abril de 2016 estávamos congelados em Moscou, sem saber nosso próximo destino.

Abril de 2015 nos via em Londrina esperando a caçula nascer.

Em abril de 2014 vivíamos a vida loca em Dubai.

Abril de 2013 viu o Marido e eu fugindo para casar em segredo em Las Vegas, na Little White Chapel (aquela do Elvis).

Em abril de 2012 eu pedia a conta de um emprego horrível e fazia as malas para passar uma temporada na França, inebriada de paixão.

Abril de 2011 eu terminava o mestrado e realizava o antigo sonho de lecionar em uma faculdade.

Abril de 2010 me via chegando em Mascate pela primeira vez, trazendo a Primogênita nos braços e um ex-marido a tiracolo. O mesmo mês via o Marido também chegando como expatriado pela primeira vez, não muito longe daqui, em Abu Dhabi.

E depois as memórias se perdem, irrelevantes. Onde estaremos em abril de 2018? Em Londrina? Em Marseille? Não ficarei surpresa se estiver seja lá onde for e morrendo de vontade de fazer as malas e fugir de novo. Mas nesse momento, cansada de tantas mudanças, gostaria de me imaginar criando raízes, cuidando de plantas e tendo um gato (ou cachorro). Tanto se fala do friozinho na barriga na hora de deixar a terra natal e partir mundo afora… mas não é diferente do medo de voltar para um mundo que mudou sem a nossa presença. É infinitamente mais fácil ser um estranho mundo afora do que ser um estranho no próprio ninho. Que outros meses de abril nos encontrem felizes, onde quer que estejamos…

 

A Noite

21.30. Hora de ir prá cama. Olho as meninas dormindo mais uma vez, vou para o quarto, deito e me aconchego no Marido.

21.33. O Marido já dorme profundamente. Incrível!

21.40. Esqueci de preparar a mamadeira com água para a Caçula. Vou para a cozinha e na volta aproveito para checar a fralda mais uma vez. Tudo em ordem, volto para a cama.

22.00. A Primogênita aparece do lado da minha cama, de camisola branca e cabelo desgrenhado cobrindo o rosto, parecendo coisa de filme de terror. Levo o maior susto e grito. Ela pede para ir dormir com a irmã e eu digo ok. O Marido continua dormindo.

22.15. Tomara que a bebê durma pelo menos até as 2 da manhã. Quase quatro horas seguidas de sono seria um sonho… zzzzzzz…

23.30. Mamaaaaaaaaa! Estava dormindo tão profundamente que achei que já era de manhã. Pelo menos ainda é ‘cedo’. Vou para o quarto da Caçula e vejo a Primogênita dormindo espaçosamente bem no meio do colchão, e a bebê atravessada em cima da cabeça da irmã. Ajeito as duas, e como continuam dormindo, volto prá minha cama.

00.15. Buaaaaaaaaaa! Mamaaaaaaaaaa! Lá vou eu de novo. Ofereço água, não quer. Chora baixinho, resmunga. Deito junto no colchão, afago suas costas. Ela está cansada, quer dormir, mas algo a está incomodando. Pego-a no colo e levo para o quarto da Primogênita. As noites em que passo pelas três camas são as piores.

… Chora, acorda, chora, dou beijo, canto, esfrego as costas, dorme, acorda. Até que solta uns pums e parece dormir de vez.

2.00. Volto para minha cama e zzzzz…

2.50. OOOOOOOOINC! Jezuismariajosé! Pulo da cama com o ronco do Marido! Não é possível! A Caçula lá no outro quarto também acorda e chora. Com a delicadeza de um elefante, viro o Marido de lado – que continua dormindo – pego o meu travesseiro e fecho a porta, pois sei que não voltarei para minha própria cama mais.

3.00. Dorme, bebê, dorme. Pelamordedeus, dorme… Ah, a mamadeira de água ficou no outro quarto. Busco, volto, troco a fralda. Ela bebe um pouquinho e dormimos juntas.

4.10. Allaaaaaaaaaaahu Akabar! E lá vem o Adhan. Hora dos muçulmanos fazerem sua primeira prece. Allah é grande e meu sono também. Todos continuam dormindo em casa. Ok, se eu conseguir dormir agora ainda terei duas horas de sono até o alarme despertar.

4.30. Vou ter que dirigir mais de 100 km hoje, terei que corrigir quase 100 redações. Preciso dormir, preciso dormir. Pelo menos mais um pouquinho… zzzz

5.15. Mama, mama, mama, mama! Pelo tom energético já sei que é game over. Sem chance de voltar a dormir. Alcanço o tablet e ponho a Galinha Pintadinha. Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado…

5.30. Cansou da Galinha Pintadinha. Quer acordar e brincar com o resto da família. Nada mais justo. Vai até o nosso quarto, abre a porta e vai cantarolando: Papa, papa, papa, papa! Fico olhando. O Marido acorda, dá um sorriso, beija a bebê, olha o relógio, se espreguiça e resmunga:

‘Estou tão cansado…’

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