O começo

Dezembro de 2016. Era uma manhã fresca e ensolarada em uma capital do oriente médio. O Marido abotoava a camisa e eu terminava de colocar a maquiagem. Estávamos cansados e desmotivados e ainda nem eram 7 da manhã. ‘Talvez devêssemos voltar para a França’ disse ele. Voltar, no caso, seria somente para ele, que é francês. Para a Primogênita, para a Caçula e para mim, seria simplesmente ir. Já havíamos discutido o futuro tantas vezes, sempre diminuindo o nosso exílio voluntário de pouquinho em pouquinho – ‘vamos ficar por aqui até a Primogênita terminar o ensino médio’, ‘pensando bem, poderíamos ir embora antes de ela começar o ensino médio’, ‘quem sabe só mais uns 3 anos até juntarmos um pé-de-meia razoável?’. A cada plano alterado sempre lembramos aquele ditado: “se você quer fazer Deus rir, conte a ele seus planos”, e seguimos em frente.

Dirigindo para o trabalho percebi que nunca havia considerado morar na França como uma alternativa real. Lógico, nos nossos planos mirabolantes a aposentadoria seria sucessíveis períodos de seis meses em Marseille e em Londrina, ou em Lyon e alguma praia do nordeste, para um perfeito equilíbrio entre cidade e mar. Seis meses de primavera e verão na França, e depois mais seis meses de primavera e verão no Brasil. Parfait! Mas isso era prá aposentadoria e ela está longe (não tão longe quanto estaria no Brasil depois dessas reformas, mas ainda assim, bem longe).

Durante o dia, em meio ao tsunami de alunos vindo à minha mesa reclamar de suas notas, refleti que uma mudança para a França seria o fim da minha carreira como professora universitária. Dolorido, mas não necessariamente ruim. Seriam anos até eu aprender a nova língua a um nível decente. Por outro lado, morar na França significaria uma estabilidade para nossa pequena família. Um enfim ‘estar em casa’, mesmo que nunca tenha sido minha casa. Mesmo que talvez nunca venha a ser de fato. Mas um lugar para criar raízes depois de anos como profissionais mercenários, pulando de país em país. Talvez tenha chegado a nossa hora de ir e de voltar. Peut être.

À noite, quando o Marido chegou, eu disse: ‘ok, então vamos!’. Ele me olhou confuso, nem lembrava mais do que tinha dito de manhã. ‘Vamos morar na França. Acho que estamos prontos’. Ele viu nos meus olhos que eu estava falando sério, e que eu sabia que a mudança não seria fácil. E eu vi nos olhos dele que ele ansiava por essa mudança há muito, muito tempo. E assim, despretensiosamente, começava a nossa Operação França.

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Foto tirada pelo Marido em Novembro de 2011, em Marseille.

2 comentários sobre “O começo

  1. Cheguei ao blog pelo grupo de cabelo no Facebook e descubro que somos “vizinhas” – eu em Abu Dhabi, você em Muscat. Espero que sua Operação França seja um sucesso. Costumo dizer que há um limite de saturação para Oriente Médio. O meu, talvez, também não esteja tão longe assim. Vai saber. Sucesso!

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    1. Pollyane, como é bom encontrar vizinhas brasileiras e blogueiras! Mas sabe, estávamos de saco cheio quando morávamos em Dubai e resolvemos ir para a Rússia. E lá percebemos o quanto é bom morar aqui… Tenho certeza que vamos sentir falta quando formos embora de novo. Seu blog é uma delícia, adorei!

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