Mudanças

O clima elétrico de mudança está por toda a parte. A Primogênita não quer mais usar roupas cor de rosa, só jeans e camisetas, pois agora é uma ‘tween’. Só falta aprender a escovar os dentes direito. O Marido não quer mais usar camisetas, só camisa polo, pois agora inventou de jogar golfe e se assumiu ‘tiozão’. Só falta arrumar um Corolla. A Caçula não quer mais tomar leite, só água de côco, pois não é mais uma bebê. Só falta dormir a noite toda.

A cada manhã prendemos a respiração antes de ler as notícias no celular. Primeira semana desastrosa de Donald Trump, conservadores e extrema-direita fortes nas pesquisas de opinião na França, cenário político brasileiro uma eterna piada de mau gosto. O que mais falta acontecer? ‘Tudo está caminhando para uma terceira guerra mundial’, diz o Marido, que deve ser o francês mais otimista que já existiu.

Nossa pequena família segue se preparando para a grande mudança, que um dia chegará. A Primogênita já está acompanhando o resto da turma nas aulas de matemática. Nessa semana começará as aulas particulares de francês como língua estrangeira. A Caçula aprendeu a falar uma nova palavra, ‘ok’. Junta-se à ‘mamãe’, ‘papa’, ‘sáuêqi’ (que é como ela chama a irmã), ‘apple’, ‘oui e ‘no’. Trilingualismo em desenvolvimento. O Marido fez suas primeiras entrevistas de emprego, e recusou um contato para trabalhar para uma empresa francesa fabricante de mísseis. ‘Porque o Papa gosta de construir, não de destruir’, expliquei para a Primogênita, transbordando de orgulho e felicidade.

Passamos o fim de semana analisando a bizarrice da nossa situação. Caminhando descalços em praias de águas cristalinas e sonhando com uma Paris úmida e cinzenta. Discutindo a ideia de que a humanidade passa por picos evolutivos como o que estamos vivendo, e que as coisas devem piorar muito antes de melhorarem. Eu, apreensiva com a ideia de ser uma imigrante na França. Ele, me assegurando que tudo ficará bem. Nós dois, ansiosos para deixar a segurança desse belo sultanato e começar algo novo numa Europa faiscando de tensão. Como dizem, a mudança é a lei da vida.

 

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Paris, Maio de 2012.

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