A incivilidade da Parisiense que deixou um livro na rua

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Imagem Pixabay

 

Parece que aquele provérbio que diz que nenhuma boa ação fica impune encontrou um paralelo perfeito essa semana em Paris. Uma senhora deixou um livro numa calçada do 18ème arrondissement, na esperança que alguém o achasse e desse continuidade ao propósito do nobre objeto. Deu o azar de ser vista por fiscais da prefeitura, da chamada Brigada contra a Incivilidade, que a recompensaram com uma multa de 68 Euros – a mesma por jogar bituca de cigarro ou deixar cocô de cachorro no chão.

Penso em quantas vezes também cometi essa “incivilidade”, digna de uma multa desse tamanho. Lembro de um dia olhar para a minha sempre crescente estante de livros, e decidir que era hora de desapegar. Comecei a furtivamente abandonar livros no ônibus, em bancos de praça, no shopping, na sala dos professores, no restaurante universitário. Andava sempre com um livro já lido na bolsa, procurando um lugarzinho especial para deixá-lo. Me sentia uma Amélie Poulain literária. As vezes ficava de butuca olhando de longe para ver se alguém se interessava e adotava o meu ex protegido. Muitas vezes estranhos correram atrás de mim para me devolver o livro “esquecido”. Por vezes deixava bilhetinhos, convidando o prospectivo leitor a passar o livro adiante depois de lido. Reencontrei alguns volumes em sebos de Londrina. Vi, em pânico, uma adorada história ter o seu funeral junto de restos de BigMac numa praça de alimentação. Também vi um gari parar seu trabalho, passar a mão sobre a capa e guardar o livro com cuidado no bolso do macacão. Isso porém foi há tanto tempo… Nossa vida nômade e a maravilhosa tecnologia do Kindle fizeram o meu antigo hobby desaparecer. Hobby esse que no meu caso nada tinha de altruísta, pois a maior beneficiária era eu mesma – nerdicamente (e quase pervertidamente) fantasiando sobre o futuro de todas aquelas páginas abandonadas à própria sorte.

E hoje a história da parisiense me trouxe de volta todas essas lembranças. Por sorte, o caso dela teve um final relativamente feliz. Depois de contar o ocorrido na internet, e da esperada indignação local, a história chegou até a prefeitura de Paris que tuitou: “Foi um erro. Paris ama os livros e ainda mais aqueles que os compartilham. A multa será cancelada”. Menos mal para a atrevida infratora francesa que ousou sujar a calçada da Cidade Luz com um pequeno livro… mas depois disso, quantos obras deixarão de ser, incivilizadamente, semeadas pelas ruas parisienses?

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