Ah, ela é hiperativa, né?

Ah, ela é hiperativa, né-

Mamã! Mamã! Abro os olhos e ainda está escuro. Estou numa cama que não é a minha e não me lembro de como vim parar aqui. Penso que isso é um bom sinal, quer dizer que fiz a minha rotina da noite em modo automático: ela acordou, chorou, eu vim até seu quarto, deitei com ela e acabei dormindo junto. Sim, foi uma noite excepcionalmente boa. Não posso reclamar. Não teve xixi na cama, não teve nariz entupido, não teve pesadelos, não teve seja lá o que for que a faz ficar acordada na madrugada com tanta frequência. Mas não são nem 5 da manhã ainda. Da mesquita da esquina vem o som do Adhan, a chamada para a primeira oração do dia. O galo do vizinho também já está cantando. Ah, o que eu não daria por uma horinha de sono a mais. Mas durante esses breves segundos de divagação ela já puxou a caixa de brinquedo para a parede e está se divertindo ligando e desligando a luz. E começa um novo dia…

Vou para o banheiro e levo ela junto. Sento no vaso e ela vai direto procurar o xampu. Está lá no cantinho da banheira, estrategicamente longe do alcance de mãozinhas curiosas. Ou melhor, estava, pois ela acaba de descobrir que consegue chegar lá se apoiando na pia. Impotente, vejo o frasco sendo apertado e o xampu escorrendo na banheira. Ainda bem que estou fazendo o No Poo Raiz, penso. Chego para o resgate, lavo as mãozinhas e a coloco no chão enquanto tento limpar um pouco a banheira. Quando viro a vejo tomando água diretamente da duchinha ao lado do vaso. Meu grito acorda o resto da família.

Tomamos café ao som da Galinha Pintadinha. A Primogênita chora ao ver que a Caçula tirou e espalhou pelo quarto todos os seus livros da mochila da escola. Quem mandou deixar a mochila ao alcance dela? digo eu, ciente de estar culpando a vítima. Semana passada a professora não achou graça quando ela disse que a irmãzinha tinha, literalmente, comido seu dever de casa. O Marido consegue mantê-la ocupada enquanto começo a me arrumar, mas acabo terminando de passar a maquiagem com a pequena nos braços. Como sempre, desisto do rímel. A babá chega e respiramos aliviados. Principalmente a bebê, pois sabe que chegou a hora de ir ao parquinho.

Chego no trabalho aliviada por não ter hematomas aparentes. Já cheguei com o lábio mais grosso que o da Angelina Jolie, quando uma cabecinha revoltada me acertou em cheio. Mordidas nos braços, beliscões… Ninguém pergunta, mas notam. Os colegas com filhos comentam o que fizeram no fim de semana. Piscina, restaurantes, piqueniques no parque. Nós passamos o fim de semana tentando impedi-la de se matar. Ah, ela é hiperativa, né? diz a recepcionista do hotel enquanto a bichinha se desvencilha dos meus braços e derruba a tabela de preços do balcão. Ponho ela no chão para pegar a carteira, procurando o Marido que está chegando com as malas. Ele larga tudo no caminho mas não consegue chegar antes dela na bagagem de outros hóspedes, que caem como dominós no lobby. Na piscininha de bebês, o Marido se empenha e se diverte junto. Sentada num banco ao lado, fecho os olhos para sentir o sol. Um momentinho de paz. Abro-os ao som de um grito desesperado do Marido e vejo a pequena correndo a todo vapor em direção à piscina grande. O salva-vidas, rápido, já correndo ao seu encontro. Adultos na piscina já nadando em direção a onde ela cairia. Senhoras ao redor prendendo a respiração, mãos na boca e no peito. O Marido aparece voando, agarrando-a pelo braço centímetros antes da queda. Todos respiram aliviados, nenhum ferimento dessa vez. Que ideia de jerico a nossa de achar que poderíamos nos divertir com a bebê na piscina.

Ainda é cedo para fazer um diagnóstico de hiperatividade, diz a pediatra na França ao vê-la tentando pular de uma cadeira para outra do consultório aos 10 meses de idade. Nem tinha tocado no assunto. Tinha ido lá só para a vacina. Essa agitação toda pode ser falta de ferro, diz outro pediatra em Omã, ao vê-la se jogar no chão depois de tentar escalar a mesa. E eu que achava que falta de ferro deixava a gente sem energia. Lá vamos nós então dar suplemento para a bichinha. Vai que dá certo e ela se acalma. Tô aceitando todos os conselhos. Não pode dar comida com corante alaranjado. Tirei tudo amarelo e vermelho também. Ela deve comer muito açúcar, né? Aproveitei e cortei o sal também. Vocês devem estar fazendo alguma coisa errada, não é normal criança nessa idade não dormir. Obrigada, já não passa um minuto sem que eu lembre que devo estar fazendo alguma coisa errada. Se ao menos eu soubesse o quê! Reze, peça ajuda a Deus. Já fiz isso também. Pessoas com mais cacife com o Todo Poderoso também. Mas ela continua com formigas na fralda. Penso naquelas histórias de pacto com o tinhoso. Cadê ele que não me aparece com uma proposta? Minha alma por noites de sono ininterruptas. Tô aqui facinha, facinha… O fulano tinha um filho assim como a sua, e acabou medicando o menino pois ele estava colocando a própria vida em risco. Ok, nem tanto. Vou tentar óleo de lavanda e camomila de novo. Vai que dessa vez dá certo…? Viu a história da criança que caiu da sacada do prédio e morreu¿ Não quero saber. Com a Caçula nasceu junto um pavor de perde-la. De não ser rápida o suficiente. De um dia chegar tarde demais.

Volto prá casa apreensiva. Como terá sido o dia dela? Será que está inteira? Mês passado ela arrancou a maçaneta do quartinho, ficando trancada com a babá por mais de uma hora, até a Primogênita chegar da escola e chamar o rapaz da manutenção do prédio. Encontrei a babá chorando, com os dedos ensanguentados por tentar abrir a porta. Outro dia tive que correr para o pronto-socorro depois de ela queimar o bracinho com água do bebedouro da casa da vizinha, debaixo dos olhos de dois adultos. Hoje o dia foi tranquilo, só os machucados habituais diários. Todo dia um hematoma novo, um corte novo, um arranhão novo. Esse foi batendo a cabeça ao correr atrás de um gato, aquele ao escorregar na grama, aquele outro tentando subir no poste de luz.  A babá só reclama das outras babás do prédio. Está ofendida pois elas não acreditam que a nossa bebê nem tem 2 anos ainda. Acham que ela está mentindo a idade para “se vangloriar”. Cada uma…

Tomo um banho rápido e a babá vai embora. O banho da bebê, que costumava ser uma atividade relaxante virou um jogo rápido desde que ela começou a insistir em mexer nas torneiras. Para ela, uma brincadeira, para mim, um novo temor de não ser rápida o suficiente e ela acabar escaldada. Vou preparar o jantar. Macarrão com molho pronto de novo. Nem dá vontade de começar. Ela puxa uma cadeira e vai brincar na pia. Coloco umas louças de plástico e ela se diverte. Viro para olhar a panela e nesses dois segundos, DOIS SEGUNDOS, ela alcança o detergente do outro lado do balcão e está com ele na boca. Corro prá lavar sua boquinha, me sentindo um fracasso. Peço ajuda para a primogênita para olhar a irmã enquanto escorro a água do macarrão. Mal termino e vejo a cozinha coberta de grãos de arroz. Um dos poucos alimentos ainda guardados no balcão de baixo, um saco de arroz fechado, não sobreviveu aos dedinhos da Caçula. Respiro fundo. Quantos milhares de grãos estão ali? Agora um pouco menos pois ela já pegou um punhado e está a caminho do tapete da sala. Uma hora e meia ainda até o Marido voltar do trabalho. I will survive. Aquela coisa amarelada na cortina é papinha ou cocô? Banho de novo. Bendita Peppa Pig e santa mamadeira que me dão a oportunidade de acariciar minha menina por uns instantes. Mas logo ela já esta em cima da mesa e o tablet estraçalhado no chão. Oh no, diz ela, contemplando os estilhaços.

Hora de dormir. O Marido vai ajeitar a cozinha e ajudar a Primogênita com o devoir. A Caçula e eu vamos para o quarto. Tranco a porta, apago a luz, canto baixinho a música que fiz para ela. Durante uma hora ela pula do colchão para o chão, do chão para o colchão. Se joga na piscina de bolinhas, pega a aranha de plástico e faz ela subir a parede cantando Itsy Bitsy Spider. Enfia o dedinho no meu umbigo, morde minha canela, tira tatu do nariz e põe no meu cabelo. Dá cambalhotas e ri alto. Bate a boca no meu joelho e chora. Vai para a janela e dá tchau para os carros na rua. Até que vira e me procura. Põe a cabecinha no meu braço e se aconchega junto a mim. Decidida, coloca minha mão no seu peito. Põe sua mãozinha dentro do meu sutiã. Me olha, já meio adormecida, e dispara 3 inesperados beijinhos no meu ombro. Um, dois, três. E dorme. Talvez ela não só precise de mim. Talvez ela me ame também. E eu então brinco de mamãe de comercial de tevê, com minha cria tranquila nos braços. Cheiro seus cabelos, acaricio seu rosto, beijo suas mãozinhas. Pressiono com meus lábios todo o amor do mundo na sua testinha suada. Perdoe a mamãe por estar sempre tão cansada. Perdoe a mamãe por não conseguir acompanhar o seu ritmo.

Vou ver a Primogênita em sua cama. O Marido me espera com um longo abraço. Desabo no sofá para ganhar massagem nos pés. Lembro que durante o dia pensei que poderíamos assistir a um filme, ou ter uma noite romântica, ou simplesmente conversar um pouco. Rio de tamanha ambição e logo adormeço também, enquanto posso, pois o ciclo de sono da pequena é tão rápido quanto suas perninhas. Quem sabe amanhã… quem sabe…

 

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