Gleba Palhano Poética

Hoje aproveitei a boa vontade do Marido em ficar com as meninas e  fui caminhando para um compromisso pela manhã, pouco antes de mais um dilúvio londrinense. Observava o vai e vem dos moradores e pensava em como a minha terra natal agora me parece tão estranha, tão ”exótica”. As pessoas eram assim tão simpáticas, sempre dando bom dia a estranhos quando eu morava no centro de Londrina? Ou será uma particularidade da Gleba Palhano? Ou eu é que nunca tinha prestado atenção antes de partir? Continuei caminhando e logo vi uma plaquinha num gramado de prédio que me fez rir. Quando vi a segunda e a terceira resolvi voltar para tirar foto da primeira também para poder compartilhar aqui essas pérolas da poesia com temática fecal (todas na rua Eurico Humming):

‘Não deixe no chão o que é do seu cão’

‘Vizinho legal recolhe as fezes do seu animal’

‘Seja um bom cidadão, recolha o cocô do seu cão’ (esse com o nome do prédio embaixo, o que por alguns instantes míopes me fizeram pensar que era o nome do orgulhoso autor da rima).

Enquanto tirava o celular da bolsa uma moça aparece puxada por seu cachorrinho, de uma daquelas raças caríssimas e aparentemente obrigatórias aqui nesse bairro. O cachorrinho começa a circular se preparando para evacuar, ali a um metro de mim e a dois metros da plaquinha. A moça sorri meio sem graça e rapidamente tira uma sacola plástica do bolso, obviamente para me mostrar que ela vai limpar o cocô depois. Quando ela percebe que eu estou tirando foto da plaquinha anti-fezes caninas, começa a agitar a sacola até fazer barulho, exalando desconforto com a situação.

O cachorrinho, indiferente às plaquinhas espirituosas e à aflição da sua dona, se contorce, visivelmente constipado. Eu me enrolo um pouco, me divertindo com a situação bizarra e me dando mentalmente um tapinha nas costas por ter batido o pé e insistido que um gato seria o pet ideal para nossa família – dá muito menos trabalho. Mas logo fico com vergonha do meu sadismo e me apresso a sair, fazendo algum comentário sobre o toró prestes a desabar e quase escuto o suspiro de alívio da moça. Mando boas energias para o cachorrinho ”ressequido” (como dizia minha vó) e sigo meu caminho. Olho para o céu e desisto de me aventurar por outras ruas a procura de mais poesia glebense. Ou seria glebapalhense? Ou ainda glebapalhanoense?

Alguns minutos depois a chuva cai com força e os habituais personagens do bairro desaparecem. As moças saradas com roupas de ginástica na rua, os jovens pais com seus bebês em carrinhos modernos, os tiozões voltando encharcados de suor do Igapó, os adolescentes resmungando ao carregar sacolas cheias de compras do Super Muffato do Aurora. E como num passe de mágica, os cachorrinhos caros passam para os colos dos donos e somem rapidamente adentro dos prédios. A chuva logo começa a enlamear os jardinzinhos impecáveis e eu, já pingando, penso que isso sim é poesia glebialística.

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