A Estrela do Mar

QUINTA-FEIRA, 30 DE JUNHO DE 2011

Hoje me dei um presente. Saí de casa ao som do adhan, a chamada das mesquitas para a primeira prece do dia, e fui ver o sol nascer na praia. Não via um alvorecer desde a adolescência, e pela primeira vez na vida fiz isso sozinha.

O céu se transformava rapidamente de um azul escuro e lustroso para uma paleta pastel de rosas e salmão. Acho que esperava um amanhecer de cores mais alegres e vibrantes, como o pôr do sol aqui no Oriente Médio. Mas logo percebi minha tolice, valorizando o drama ao invés da suavidade e da paz. Procurando defeito na perfeição.

Entre as incontáveis conchinhas trazidas pela maré, me deparei com uma solitária estrela do mar. Não pude deixar de sorrir ao lembrar da histórinha da imprudente estrela do mar que se apaixonou por uma estrela do céu. Será que é verdade que se cortarmos uma estrela do mar ao meio, ela se regenera e acaba por se tornar duas? Nas minhas mãos, a criaturinha mexia seus inúmeros pézinhos desesperadamente, e eu me senti envergonhada pela tentação momentânea de quebrá-la. A vida já é difícil o suficiente quando se é inteira. Coloquei-a de volta ao chão e em segundos ela já estava debaixo de uma fina camada de areia, protegida dos perigos que a cercam.

Estrelinha esperta. Não ignora o medo como nós humanos fazemos. Mas se por um lado debaixo da areia ela está segura, por outro também perde a chance de ver a beleza do mar e do céu. Será que vale a pena, estrelinha?

Até que me dei conta de que a natureza estava ali me oferecendo um de seus mais belos espetáculos enquanto eu olhava para a areia, melancolicamente praticando minha filosofia barata. Nesse momento, uma frase de Emmanuel que ouvi há anos e que estava guardada no fundo de alguma gaveta do meu subconsciente me veio a mente com tanta força que senti me coração palpitar:

“Quem disser que Deus desanimou de amparar a Humanidade, medite na beleza do Sol, em cada alvorecer.”

E eu que aprendi a não dividir minhas angústias com ninguém, em parte pelo receio de que elas se tornem mais reais ao verbalizá-las, em parte por não querer preocupar os que me amam, me senti abraçada e amparada por essa ideia.

Confesso que não rezava há anos, por vergonha das minhas fraquezas e das minhas pretensões (isso em si mais um sinal do meu orgulho), mas ali diante do firmamento mágico de Omã, murmurei uma prece de agradecimento e de desculpas.

Fechei os olhos e ouvi o som das ondas como palavras de apoio, senti a areia entre meus dedos como uma carícia, e vi o brilho do sol refletido no mar como um sorriso sereno a me assegurar que tudo vai ficar bem, e que assim como a estrelinha do mar, todos temos dentro de nós o que é preciso para nos regenerar e renascer ainda mais fortes.

Minha companheirinha hoje de manhã.
                                 ***
Encontrei esse texto que havia escrito em 2011 por acaso. Nem lembro o que tinha acontecido mas parece que eu estava meio borocoxô. Bom ver que nessa vida, tudo passa… 🙂

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