Quando o rosto feminino ofende e o ânus entretém

Duas caixas em uma prateleira da Virgin Megastore chamaram minha atenção. Parei, peguei cada uma. O mesmo produto, um cobertor com mangas e um bolso frontal. Em uma das caixas, a modelo sorridente, aconchegada num sofá, com um tablet na mão. Na outra, a mesmíssima foto, mas com o rosto da modelo pixelado – um frase em árabe nessa segunda caixa logo me faz entender o porquê da alteração. Já no meu quinto ano morando no oriente médio, não posso dizer que nunca tinha visto isso antes. Na Arábia Saudita, o normal é ver produtos com fotos femininas rabiscadas com tintas pretas, cobrindo antebraços, canelas, cabelos e tudo o mais que possa trazer maus pensamentos aos virtuosos varões sauditas. Por outro lado, ver aquele rosto deliberadamente escondido, como se fosse algo vergonhoso, em plena Mascate me deixou abalada. Depois da Ikea deletar mulheres dos seus catálogos, agora a Virgin Megastore também está cobrindo rostos femininos? Escrevi para a página deles no facebook: “Por favor, me ajudem a entender por que vocês estão vendendo esse produto. O rosto feminino é algo assim tão ofensivo?”. Responderam rápido, dizendo que a foto foi alterada pelo próprio fabricante e não por eles. Mais tarde escreveram que o produto foi tirado da loja depois da minha primeira mensagem e que eles respeitam a cultura e a legislação de cada região em que operam. Então, tá.

E aí chega o carnaval e na minha timeline aparece uma mulher pintada de verde, mostrando o fiofó para a câmera. Tanto bafafá sobre o assunto e tudo que eu consigo pensar é que estamos em 2017 e tantas mulheres ainda tem como objetivo de vida serem admiradas pelos seus atributos físicos. Enebriadas com a  oportunidade de rebolarem na tevê. Penso em todo o nosso sistema cultural que produz esses casos. Anseiam os holofotes nas suas bundas como as daqui anseiam pelo vento nos seus cabelos. Eu entendo e apoio as feministas que se opõem a sexualização e objetificação do corpo feminino. Também entendo e apoio as que buscam a liberdade de exporem seus corpos como quiserem, assim como é permitido aos homens. Feminismo diz respeito a liberdade, a escolhas, como diz Emma Watson, fuzilada nessa semana nas redes sociais por estar com parte dos seios de fora. Nunca assisti Harry Potter, mas ouvi-la como Embaixadora da ONU Mulheres há uns anos fez um cisquinho cair no meu olho. Hoje, quando minha Primogênita de 9 anos me perguntou o que eu achava dela, assistimos juntas ao seu discurso.

Da minha parte, tudo que eu gostaria é que o ser mulher deixasse de ser um evento. Que deixássemos de ser o Outro. Que deixássemos de ser seres linguisticamente e culturalmente marcados. Simplesmente, que ser mulher pudesse realmente ser uma coisa normal. A realidade porém, está mais perto da rajada de xingamentos que ouvi de um saudita em um shopping de Jedá quando meu lenço escorregou e expôs meus cabelos. Está mais perto da cara de horror e vergonha de uma amiga quando eu resolvi ir à piscina do clube em Londrina usando um maiô de perninha. Estamos sempre erradas. Somos erradas. Nesse dia internacional da mulher me sinto especialmente desmotivada. Entre goleiros assassinos em liberdade e políticos poloneses confortáveis em seus discursos de ódio, parece-me que o futuro nunca vai chegar. Sinto por minhas meninas que ainda nem imaginam o que está por vir. Pois a vida nos ensina que quando um homem é oprimido e subjulgado, é uma vergonha, uma tragédia, um escândalo. Mas quando a vítima é uma mulher, é simplesmente a cultura, é a tradição… Sejam elas vestes negras ou tinta verde.

2016-12-29 13.14.28
Cobertores da marca Kanguru, a venda em Janeiro de 2017 na Virgin Megastore em Mascate, Omã.