A vovó que roubava flores

 

Missa de sétimo de uma parente, igreja católica no centro de Londrina.

 

Dona Olga, minha vó, mal se continha de felicidade ao ver aquele número inédito de filhos e netos ali em frente à igreja. Desvirtuados descendentes crentes, espíritas, umbandistas, ateus, e até um muçulmano, ali, no território dela. Estava tão eufórica que eu tinha que as vezes lembra-la do motivo da reunião.

‘Dona Fulana, essa é a minha neta, que te falei!’

‘Prazer, Dona Fulana. Desse monte de gente aqui, eu sou a neta preferida’

Dona Olga fez um charminho, fingindo estar preocupada que algum outro neto pudesse ter me ouvido, mas sem intenção alguma de desmentir minha afirmação.

E então eu vejo que sua expressão muda de repente, seus olhos extasiados fixos em algo atrás de mim.

‘Ah!’ diz ela, e hipnotizada começa a andar em direção a um pé de primavera. Entro em pânico pois antes da missa foi-me dada uma única missão:

‘Cuida da vó para ela não roubar as flores do padre’

Dona Olga, católica fervorosa, alta e ágil até os meados da sua oitava década, tinha um pequeno defeito… em se tratando de flores, ignorava o conceito de propriedade privada. Pulava pequenos muros e abria portões alheios com a mesma naturalidade que entrava em terrenos baldios em busca de seus coloridos tesouros. Chegava em casa com seus chinelos embarreados, cheia de arranhões, mas com enormes buquês nas mãos. Uma vez levou uma mordida de cachorro. De vez em quando alguém reclamava, mas quase sempre ignoravam a meliante de cabelos alvos e movimentos furtivos.

‘Vó, a senhora roubou flores de novo?’

‘Não, foi aquele senhor japonês da casa da esquina que me deu. Ele estava varrendo o quintal, bati palma e pedi umas flores. E ele deu, ó.’ Mentia tão bem que as vezes acreditávamos.

Dona Olga cometeu seus pequenos delitos durante décadas, no Jardim San Remo, no conjunto Milton Gavetti, no centro de Londrina, nas chácaras perto de Cambé. ‘Não é roubo, foi Deus que fez’, dizia ao ouvir nossos protestos, enquanto colocava suas flores em potes de maionese, em copos de requeijão, em vidros de geleia.

Naquele fim de tarde em frente à igreja, corri atrás dela para salvar o galho de primavera.

‘Vó, é pecado roubar as flores da igreja!’

‘Não tô roubando, só vou pegar umas, aqui tem um monte’

‘Vó, o padre vai ver e vai ficar puto da vida!’

‘Olha a boca, menina!’ e continuava procurando o melhor lugar para quebrar o galho.

Me coloco em sua frente e suplico: ‘Vó, não pode arrancar senão morre!’

Ela para, me olha séria. Olha prá trás e vê a Dona Fulana chegando. Dá uma risadinha sem graça. Fecha a cara, me dá um tabefe na cabeça e diz prá sua amiga, indignada:

‘Ouviu isso? Ela disse que se eu arrancar a flor eu vou morrer! Cada uma…’

‘Não, vó, eu quis dizer que a flor morre!’

Mas ela já tinha pego a Dona Fulana pelo braço e se distanciava do pé de primavera. Missão cumprida, mesmo que ao custo do meu status de neta preferida.

 

Dona Olga nos deixou há alguns meses, e eu, longe, ainda não pude levar flores no seu túmulo. Nessa semana completaria 93 anos. Da minha janela vejo um pé de primavera florido e penso nela. Se suas crenças estiverem corretas, deve hoje estar rodeada de flores perfumadas. Flores que jamais serão roubadas.

 

bougainvillea-1882104_960_720

Abril

Meados de abril e a primavera parece enfim chegar à Moscou. O céu ensaia um azulzinho tímido ainda, mas o sol já brilha um pouco mais animado. Um verdinho aparece aqui e ali, nas plantas brotando no jardim, e nas cebolas brotando no balcão da cozinha. Há uns dez dias a temperatura se mantêm positiva e estou um pouco menos ranzinza. Pasmem, até voltei a escrever! Mas ainda é cedo para guardar os casacões e as botas, pois ano passado a última neve só veio em maio – a coisa aqui é, literalmente, ruça (sim, com cê cedilha).

No verão (do hemisfério norte) de 2014, depois de quase cinco anos no Oriente Médio, todos os então três membros da Família Apátrida acharam o máximo a ideia de morar em um lugar que nunca haviam sequer imaginado visitar. Já me imaginava toda elegante usando casacos acinturados, luvas de couro e echarpes de lã (porque roupas de inverno emagrecem) e tomando cappuccinos em charmosos cafés moscovitas com paisagens nevadas ao fundo. Imaginava que ia enfim usar maquiagem pois lá ela não derreteria um minuto depois de sair de casa. O Marido estava empolgado com o novo cargo e com os novos desafios, e com o tanto de bacon que ele iria enfim poder comer. E a Primogênita não sabia o que esperar, mas parecia confiar na animação geral. O que ninguém desconfiava, era que um certo aglomerado de células muito especial veio junto, e que a sua existência daria o tom das experiências que estavam por vir.

Moscou me viu de queixo caído trazer o teste de gravidez para a sala onde o Marido e a Primogênita esperavam ansiosos. Os lixos de Dubai viram tantos testes negativos que eles já tinham perdido as esperanças. Moscou viu o começo de uma mudança de vida que ia muito além de trocar o deserto pela neve. Viu a Primogênita chorar copiosamente de emoção ao ver que seria enfim uma irmã mais velha (na época ela achava que era um upgrade). Moscou me ensinou que lágrimas e secreções nasais congelam quase que imediatamente se produzidos em um frio de -15 C, quando saí da clínica com a confirmação de que dentro de mim, uma pequenina futura Mulher se formava forte e saudável. Mas os meses foram passando e Moscou não viu a Bebê nascer. Por questões de logística, preferiu-se que a Bebê nascesse longe da Praça Vermelha, e sim como uma legítima Pé Vermelho no interior do Paraná.

 …

13015547_10153669857628224_6554316298837506912_n
Arquivo pessoal. O Marido, a Primogênita e a Caçula em Moscou, em abril de 2016.

Fuçando nos meus arquivos encontrei esse texto inacabado, escrito há um ano quando morávamos em Moscou. Não me lembrava de tê-lo escrito, e muito menos de como iria concluí-lo. Imagino que estávamos na mesma situação de agora: nos preparando para partir, mas sem saber ainda exatamente prá onde…

Abril de 2017 e aqui estamos em Mascate, gratos pelas experiências mas ansiosos para partir.

Em abril de 2016 estávamos congelados em Moscou, sem saber nosso próximo destino.

Abril de 2015 nos via em Londrina esperando a caçula nascer.

Em abril de 2014 vivíamos a vida loca em Dubai.

Abril de 2013 viu o Marido e eu fugindo para casar em segredo em Las Vegas, na Little White Chapel (aquela do Elvis).

Em abril de 2012 eu pedia a conta de um emprego horrível e fazia as malas para passar uma temporada na França, inebriada de paixão.

Abril de 2011 eu terminava o mestrado e realizava o antigo sonho de lecionar em uma faculdade.

Abril de 2010 me via chegando em Mascate pela primeira vez, trazendo a Primogênita nos braços e um ex-marido a tiracolo. O mesmo mês via o Marido também chegando como expatriado pela primeira vez, não muito longe daqui, em Abu Dhabi.

E depois as memórias se perdem, irrelevantes. Onde estaremos em abril de 2018? Em Londrina? Em Marseille? Não ficarei surpresa se estiver seja lá onde for e morrendo de vontade de fazer as malas e fugir de novo. Mas nesse momento, cansada de tantas mudanças, gostaria de me imaginar criando raízes, cuidando de plantas e tendo um gato (ou cachorro). Tanto se fala do friozinho na barriga na hora de deixar a terra natal e partir mundo afora… mas não é diferente do medo de voltar para um mundo que mudou sem a nossa presença. É infinitamente mais fácil ser um estranho mundo afora do que ser um estranho no próprio ninho. Que outros meses de abril nos encontrem felizes, onde quer que estejamos…

 

Quando o rosto feminino ofende e o ânus entretém

Duas caixas em uma prateleira da Virgin Megastore chamaram minha atenção. Parei, peguei cada uma. O mesmo produto, um cobertor com mangas e um bolso frontal. Em uma das caixas, a modelo sorridente, aconchegada num sofá, com um tablet na mão. Na outra, a mesmíssima foto, mas com o rosto da modelo pixelado – um frase em árabe nessa segunda caixa logo me faz entender o porquê da alteração. Já no meu quinto ano morando no oriente médio, não posso dizer que nunca tinha visto isso antes. Na Arábia Saudita, o normal é ver produtos com fotos femininas rabiscadas com tintas pretas, cobrindo antebraços, canelas, cabelos e tudo o mais que possa trazer maus pensamentos aos virtuosos varões sauditas. Por outro lado, ver aquele rosto deliberadamente escondido, como se fosse algo vergonhoso, em plena Mascate me deixou abalada. Depois da Ikea deletar mulheres dos seus catálogos, agora a Virgin Megastore também está cobrindo rostos femininos? Escrevi para a página deles no facebook: “Por favor, me ajudem a entender por que vocês estão vendendo esse produto. O rosto feminino é algo assim tão ofensivo?”. Responderam rápido, dizendo que a foto foi alterada pelo próprio fabricante e não por eles. Mais tarde escreveram que o produto foi tirado da loja depois da minha primeira mensagem e que eles respeitam a cultura e a legislação de cada região em que operam. Então, tá.

E aí chega o carnaval e na minha timeline aparece uma mulher pintada de verde, mostrando o fiofó para a câmera. Tanto bafafá sobre o assunto e tudo que eu consigo pensar é que estamos em 2017 e tantas mulheres ainda tem como objetivo de vida serem admiradas pelos seus atributos físicos. Enebriadas com a  oportunidade de rebolarem na tevê. Penso em todo o nosso sistema cultural que produz esses casos. Anseiam os holofotes nas suas bundas como as daqui anseiam pelo vento nos seus cabelos. Eu entendo e apoio as feministas que se opõem a sexualização e objetificação do corpo feminino. Também entendo e apoio as que buscam a liberdade de exporem seus corpos como quiserem, assim como é permitido aos homens. Feminismo diz respeito a liberdade, a escolhas, como diz Emma Watson, fuzilada nessa semana nas redes sociais por estar com parte dos seios de fora. Nunca assisti Harry Potter, mas ouvi-la como Embaixadora da ONU Mulheres há uns anos fez um cisquinho cair no meu olho. Hoje, quando minha Primogênita de 9 anos me perguntou o que eu achava dela, assistimos juntas ao seu discurso.

Da minha parte, tudo que eu gostaria é que o ser mulher deixasse de ser um evento. Que deixássemos de ser o Outro. Que deixássemos de ser seres linguisticamente e culturalmente marcados. Simplesmente, que ser mulher pudesse realmente ser uma coisa normal. A realidade porém, está mais perto da rajada de xingamentos que ouvi de um saudita em um shopping de Jedá quando meu lenço escorregou e expôs meus cabelos. Está mais perto da cara de horror e vergonha de uma amiga quando eu resolvi ir à piscina do clube em Londrina usando um maiô de perninha. Estamos sempre erradas. Somos erradas. Nesse dia internacional da mulher me sinto especialmente desmotivada. Entre goleiros assassinos em liberdade e políticos poloneses confortáveis em seus discursos de ódio, parece-me que o futuro nunca vai chegar. Sinto por minhas meninas que ainda nem imaginam o que está por vir. Pois a vida nos ensina que quando um homem é oprimido e subjulgado, é uma vergonha, uma tragédia, um escândalo. Mas quando a vítima é uma mulher, é simplesmente a cultura, é a tradição… Sejam elas vestes negras ou tinta verde.

2016-12-29 13.14.28
Cobertores da marca Kanguru, a venda em Janeiro de 2017 na Virgin Megastore em Mascate, Omã.

Imigrantes e as pedras que rolam

Imigrantes e as pedras que rolam

Pedra que rola não cria limo, diz o ditado. Em algum lugar do mundo, algum imigrante pensa na vida que deixou, nos seus entes queridos. Talvez esteja feliz com sua decisão. Talvez não. Penso no limo e na sua ambiguidade. Limo que representa estabilidade, o fruto de uma vida calculada e segura… mas tantas vezes estagnada. Como imigrantes, somos as pedras lisas, em constante movimento. Mas nosso limo cresce sim, dentro de nós, alimentado com cada experiência mundo afora. Um limo impossível de nos ser tirado, pois nasce na nossa alma.

Ser um imigrante é saber que a partir do momento que partimos, não há mais um lar para voltar. Viramos estrangeiros do antigo ninho, estranhos no próprio berço. Observando de longe que no mundo que deixamos, o limo da vida continua a crescer forte e devagar, sem a nossa presença. François Rabelais, à beira da morte disse que ia buscar um Grande Talvez. Nós não esperamos essa hora chegar. Buscamos a incerteza e o desafio. Fazemos o mundo acontecer. Mudamos de lado, nos tornamos o Outro.

Em outras terras, nossos olhos brilham de fascinação e admiração ao mesmo tempo que choram de saudade e frustração. Ficamos confusos entre o nacionalismo e a universalidade. Escolhemos a Mãe Terra à Pátria Mãe. Revolucionários e humilhados. Sonhadores que não dormem. Necessários e odiados do lado de cá. Necessários e odiados do lado de lá. Vivemos a máxima de Einstein, abrindo nossas mentes para ideias novas e sabendo que elas jamais voltarão ao tamanho original. Rolling stones que agregam.

Somos híbridos. Mestiços não só de sangue, mas de cultura e de alma. Somos pedras que rolam, somos as pedras no caminho. Fazemos muito mais do que apenas construir castelos. Nosso limo une povos. Um brinde à nós, imigrantes, que transformamos pedras em pontes sobre muros. E com nossas vidas, construímos pontes entre nações.