Abril

Meados de abril e a primavera parece enfim chegar à Moscou. O céu ensaia um azulzinho tímido ainda, mas o sol já brilha um pouco mais animado. Um verdinho aparece aqui e ali, nas plantas brotando no jardim, e nas cebolas brotando no balcão da cozinha. Há uns dez dias a temperatura se mantêm positiva e estou um pouco menos ranzinza. Pasmem, até voltei a escrever! Mas ainda é cedo para guardar os casacões e as botas, pois ano passado a última neve só veio em maio – a coisa aqui é, literalmente, ruça (sim, com cê cedilha).

No verão (do hemisfério norte) de 2014, depois de quase cinco anos no Oriente Médio, todos os então três membros da Família Apátrida acharam o máximo a ideia de morar em um lugar que nunca haviam sequer imaginado visitar. Já me imaginava toda elegante usando casacos acinturados, luvas de couro e echarpes de lã (porque roupas de inverno emagrecem) e tomando cappuccinos em charmosos cafés moscovitas com paisagens nevadas ao fundo. Imaginava que ia enfim usar maquiagem pois lá ela não derreteria um minuto depois de sair de casa. O Marido estava empolgado com o novo cargo e com os novos desafios, e com o tanto de bacon que ele iria enfim poder comer. E a Primogênita não sabia o que esperar, mas parecia confiar na animação geral. O que ninguém desconfiava, era que um certo aglomerado de células muito especial veio junto, e que a sua existência daria o tom das experiências que estavam por vir.

Moscou me viu de queixo caído trazer o teste de gravidez para a sala onde o Marido e a Primogênita esperavam ansiosos. Os lixos de Dubai viram tantos testes negativos que eles já tinham perdido as esperanças. Moscou viu o começo de uma mudança de vida que ia muito além de trocar o deserto pela neve. Viu a Primogênita chorar copiosamente de emoção ao ver que seria enfim uma irmã mais velha (na época ela achava que era um upgrade). Moscou me ensinou que lágrimas e secreções nasais congelam quase que imediatamente se produzidos em um frio de -15 C, quando saí da clínica com a confirmação de que dentro de mim, uma pequenina futura Mulher se formava forte e saudável. Mas os meses foram passando e Moscou não viu a Bebê nascer. Por questões de logística, preferiu-se que a Bebê nascesse longe da Praça Vermelha, e sim como uma legítima Pé Vermelho no interior do Paraná.

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Arquivo pessoal. O Marido, a Primogênita e a Caçula em Moscou, em abril de 2016.

Fuçando nos meus arquivos encontrei esse texto inacabado, escrito há um ano quando morávamos em Moscou. Não me lembrava de tê-lo escrito, e muito menos de como iria concluí-lo. Imagino que estávamos na mesma situação de agora: nos preparando para partir, mas sem saber ainda exatamente prá onde…

Abril de 2017 e aqui estamos em Mascate, gratos pelas experiências mas ansiosos para partir.

Em abril de 2016 estávamos congelados em Moscou, sem saber nosso próximo destino.

Abril de 2015 nos via em Londrina esperando a caçula nascer.

Em abril de 2014 vivíamos a vida loca em Dubai.

Abril de 2013 viu o Marido e eu fugindo para casar em segredo em Las Vegas, na Little White Chapel (aquela do Elvis).

Em abril de 2012 eu pedia a conta de um emprego horrível e fazia as malas para passar uma temporada na França, inebriada de paixão.

Abril de 2011 eu terminava o mestrado e realizava o antigo sonho de lecionar em uma faculdade.

Abril de 2010 me via chegando em Mascate pela primeira vez, trazendo a Primogênita nos braços e um ex-marido a tiracolo. O mesmo mês via o Marido também chegando como expatriado pela primeira vez, não muito longe daqui, em Abu Dhabi.

E depois as memórias se perdem, irrelevantes. Onde estaremos em abril de 2018? Em Londrina? Em Marseille? Não ficarei surpresa se estiver seja lá onde for e morrendo de vontade de fazer as malas e fugir de novo. Mas nesse momento, cansada de tantas mudanças, gostaria de me imaginar criando raízes, cuidando de plantas e tendo um gato (ou cachorro). Tanto se fala do friozinho na barriga na hora de deixar a terra natal e partir mundo afora… mas não é diferente do medo de voltar para um mundo que mudou sem a nossa presença. É infinitamente mais fácil ser um estranho mundo afora do que ser um estranho no próprio ninho. Que outros meses de abril nos encontrem felizes, onde quer que estejamos…

 

É verdade que os franceses não tomam banho?

É verdade que os Franceses não tomam banho- (1)

Ah, o velho clichê. Acho que nada atiça tanto a curiosidade de brasileiros em relação aos franceses do que os seus hábitos de higiene – ou a falta deles. Ou da presumida falta deles. E a resposta é complexa. Volta e meia aparece alguma pesquisa dizendo que sei lá quantos porcentos dos franceses não tomam banho diariamente, e que os brasileiros são esses seres asseadíssimos, perfumados deuses do Lux Luxo. Menos, pessoal, menos.

En fait, essas generalizações estão tão enraizadas no nosso imaginário coletivo que uma das primeiras coisas que eu perguntei quando conheci o Marido era se ele tomava banho todos os dias. “Sim, todos os dias. E até escovo os dentes”, garantiu ele. Só então, satisfeita com a resposta, eu ativei o meu modo super charme irresistível. Que aliás, provou-se fatal para o pobre rapaz gaulês. O interessante é que ele demorou até entender as piadinhas que eu fazia sobre a falta de banho – ele não tinha a mínima ideia de que os franceses tinham essa fama.

Deixando de lado os fatores históricos (sim, parece que nossos ancestrais indígenas adoravam um banho de rio, e sim, o pessoal da Europa na Idade Média morria de medo de água) e do clima, na prática existem diferenças culturais em relação às práticas de higiene. Nas minhas observações pessoais (que se limitam à família e amigos do Marido) noto que os banhos são bem mais rápidos, e que nem os homens lavam os cabelos diariamente. O que não significa que cheirem mal. Quem mora em Paris, as vezes nem tem chuveiro no apartamento. Enchem a pia com água, colocam uma luva específica prá isso e fazem um banho de gato como podem. Mas isso, confesso, ouvi de terceiros. O “normal” é sim, banho diário (mesmo que breve).

Mas então por que essa fama de fedidos? Sinceramente, não sei. Já senti cheiro de arroto de vodca semi-digerida no metrô de Moscou, de peles que exalavam a repolho fermentado na Coréia, gente com bafo de camelo em estado terminal em Dubai, peido de quem parecia ter comido sopa de hiena na África do Sul, e muito fedor de bunda mal lavada nos ônibus de Londrina. Na França, não me lembro de ter sido atingida por odores extremamente ofensivos em nenhum lugar público, mas como já vi muita gente reclamar, acho que tive sorte até agora.

Mas finalmente, se você está lendo esse post por mera curiosidade, fique tranquilo. É pouco provável que os banhos dos franceses tenham algum impacto real na sua vida. Agora, se você chegou até aqui porque tem algum francês ou francesa como prospectivo objeto de desejo e está preocupado com o momento em que o l’amour estiver no ar e as chiquérrimas roupas francesas estiverem no chão, também fique tranquilo. Isso porque, o dia em que você abrir a geladeira e for nocauteada por um queijo roquefort esquecido lá dentro, ou então sentir o aroma de um refluxo gasoso depois que o seu francês ou francesa comer um tal de saucisson*, aí sim você verá que um autêntico sovaco francês era o menor dos seus problemas…

20170206_164045* Saucisson é um salame francês, feito de carne de porco defumada dentro de um pedaço de tripa, deixado pendurado por meses até criar uma camada de fungos e bolores por fora. Cheira a coisa morta. Pivô de um possível divórcio entre um francês de Lyon e uma brasileira de Londrina.

Marseille, do Netflix

Marseille

Enfim terminamos de assistir à série Marseille (Netflix). Enfim porque demoramos meses para conseguir oito noites em que as meninas dormissem cedo o suficiente, e que o Marido e eu estivéssemos lúcidos o suficiente para manter os olhos abertos por 40 minutos. Sempre que vejo alguém falando que fez maratonas de séries penso “espere até você ter filhos”. E se a pessoa tem filhos, tento não pensar em como ela consegue e eu não. Por isso, logicamente esse texto não é uma crítica. Não tenho cacife prá isso. Antes de Marseille, a última série que eu assisti foi Friends, o que é, por si só auto explicativo.

Só que quando começaram as propagandas para a série ano passado, sabíamos que teríamos que assistir, afinal, Marseille (ou Marselha) é a nossa cidade especial. Adoramos as cenas aéreas, a vista do mar mediterrâneo, e reconhecer na tela locais em que já estivemos. Mas assim que a cara do Gérard Depardieu aparece, num close fechado, fica difícil prestar atenção em outra coisa que não seja o seu nariz. É tão ‘especial’ que parece que tem uma bundinha na ponta. Minha memória me dizia que eu já tinha lido o nome dele seguido ou precedido por “galã francês”, o que me fez querer procurar no Google fotos dele jovem. Se minha mãe achava o Roberto Carlos um ‘pão’, o Gérard Depardieu pode ter sido uma ‘baguette’ antes dos anos passarem e dos quilos chegarem. Quando o nariz saiu de cena e eu saí do estado hipnótico, tinha perdido de ler as legendas.

Daí aparece o Lucas Barres em seu apartamento e o Marido fica eufórico. Isso porque ele reconheceu que as cenas foram filmadas em um condomínio que ele ajudou a construir, há uns 10 anos. Sempre que chegamos ou voltamos do aeroporto de Marseille, o Marido aponta para a colina e mostra orgulhoso o ‘projeto dele’. Sempre. E eu sempre o parabenizo, enfatizando o fato de que o projeto (pasmem!) continua de pé. Sempre. E então, a cada cena do apartamento eu ouvi uma anedota diferente sobre como fizeram prá levar as esquadrilhas até o último andar, sobre as particularidades do layout da garagem, sobre o que o filho do vizinho de um pedreiro fez no dia em que iam começar a pintura… coisas assim interessantíssimas… E lógico que eu não consegui acompanhar as legendas.

A série é cheia de personagens caricatos e tem um quê de novela mexicana, além de muitas cenas de sexo e nudez. Nudez feminina, prá variar (pffff), e no último capítulo, o Depardieu sem camisa em sua cama, exibindo seios muito maiores do que os meus. Très sexy prá caramba. E só Deus sabe o que a legenda disse nessa hora.

Finalmente, não posso deixar de comentar sobre os cabelos dos personagens masculinos da série. Como conseguir prestar atenção e levar a história sério quando um dos protagonistas é um político quarentão com cabelo de boy band dos anos 90? Mais uns minutinhos e ficava com as luzes platinadas à brasileira. E o mafioso com entradas na testa e cabelo comprido? E os bad boys com cabelo cascão? Sério, ainda usam isso? A série é do ano passado! Sobre o cabelo do Depardieu não vou comentar pois ele é um divo e pode fazer o que quiser.

Resumindo, se vocês conseguirem isolar as esquisitices, Marseille pode ser um entretenimento interessante e diferente. Au revoir!

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Fotos do Google Image, ilustrando a vanguarda do estilo capilar do sul da França. Très chic.