Preparação – A Escola Francesa

Tomada a decisão, a primeira preocupação foi com a escola da Primogênita. Por mais que ela seja uma expert em mudanças (oito escolas diferentes em cinco países, em apenas nove anos de vida), por enquanto ela só tinha que se virar em português e em inglês. Uma olhada rápida nas mensalidades de escolas internacionais e bilíngues na França logo nos convenceu que elas não são para o nosso bico. Chegando lá, sabe-se lá quando, a bichinha vai ter que estudar em uma escola francesa pública, tudo en français mesmo.

E assim, poucos dias antes das férias de Natal, o Marido foi bater na porta da única Lycée Français da nossa cidade, implorar uma vaga para nossa menina. Explicou que cedo ou tarde iríamos para a França, e que gostaríamos que ela tivesse o máximo de exposição à língua e ao sistema antes de chegarmos lá de mala e cuia. Marcaram então de trazer a Primogênita na volta das férias para um dia experimental, e para fazer uns testes.

O Marido estava tenso, se sentindo culpado por todas as mudanças na vida das meninas por conta do estilo nômade de vida que escolhemos até então, e especialmente pela tarefa astronômica de ter que aprender uma nova língua na marra, como é o caso da Primogênita. Ela porém, amou a ideia desde o começo. Logo no primeiro dia, o da aula experimental, pediu para ficar de vez e nem voltar para a outra escola. Foi recebida com entusiasmo pelos colegas que até levantaram das carteiras para recepcioná-la quando ela foi apresentada pela professora. Estava impressionada com o fato de meninos e meninas brincarem juntos no intervalo, de fazerem natação ao mesmo tempo, e feliz da vida por não ter que usar calça comprida na aula de educação física (na escola que estava, usar shorts é um privilégio concedido aos meninos apenas).

Semana passada, depois de deixarmos lá o equivalente ao meu salário de um mês inteiro entre taxas, registros e o diabo a quatro, a Primogênita começou oficialmente seus estudos na escola francesa. Por enquanto, tudo tranquilo. Ontem ela chorou na sala de aula pois lembrou que teve um pesadelo na noite anterior em que eu havia morrido e me transformado em uma múmia. Disse estar preocupada pois algum coleguinha disse que os sonhos podem ser sinais do que irá acontecer no futuro. Eu tentei tranquilizá-la, falando que o sonho foi o resultado do subconsciente dela que viu o quando eu me deteriorei desde que a Caçula nasceu, mas que vou tentar me cuidar mais para que ela não me veja mais como uma múmia. Ela gargalhou, agradecida.

Ainda não conversamos com a professora pois foram só dez dias de aula, mas parece que a transição não será assim tão traumática. É cedo para ela reproduzir o francês, mas ela entende o suficiente para me contar tudo que fizeram e aprenderam no dia. E o mais importante, ela está muito feliz. Primogênita encaminhada, agora só falta a mãe dela criar coragem e começar a aprender a língua de Molière também…

O começo

Dezembro de 2016. Era uma manhã fresca e ensolarada em uma capital do oriente médio. O Marido abotoava a camisa e eu terminava de colocar a maquiagem. Estávamos cansados e desmotivados e ainda nem eram 7 da manhã. ‘Talvez devêssemos voltar para a França’ disse ele. Voltar, no caso, seria somente para ele, que é francês. Para a Primogênita, para a Caçula e para mim, seria simplesmente ir. Já havíamos discutido o futuro tantas vezes, sempre diminuindo o nosso exílio voluntário de pouquinho em pouquinho – ‘vamos ficar por aqui até a Primogênita terminar o ensino médio’, ‘pensando bem, poderíamos ir embora antes de ela começar o ensino médio’, ‘quem sabe só mais uns 3 anos até juntarmos um pé-de-meia razoável?’. A cada plano alterado sempre lembramos aquele ditado: “se você quer fazer Deus rir, conte a ele seus planos”, e seguimos em frente.

Dirigindo para o trabalho percebi que nunca havia considerado morar na França como uma alternativa real. Lógico, nos nossos planos mirabolantes a aposentadoria seria sucessíveis períodos de seis meses em Marseille e em Londrina, ou em Lyon e alguma praia do nordeste, para um perfeito equilíbrio entre cidade e mar. Seis meses de primavera e verão na França, e depois mais seis meses de primavera e verão no Brasil. Parfait! Mas isso era prá aposentadoria e ela está longe (não tão longe quanto estaria no Brasil depois dessas reformas, mas ainda assim, bem longe).

Durante o dia, em meio ao tsunami de alunos vindo à minha mesa reclamar de suas notas, refleti que uma mudança para a França seria o fim da minha carreira como professora universitária. Dolorido, mas não necessariamente ruim. Seriam anos até eu aprender a nova língua a um nível decente. Por outro lado, morar na França significaria uma estabilidade para nossa pequena família. Um enfim ‘estar em casa’, mesmo que nunca tenha sido minha casa. Mesmo que talvez nunca venha a ser de fato. Mas um lugar para criar raízes depois de anos como profissionais mercenários, pulando de país em país. Talvez tenha chegado a nossa hora de ir e de voltar. Peut être.

À noite, quando o Marido chegou, eu disse: ‘ok, então vamos!’. Ele me olhou confuso, nem lembrava mais do que tinha dito de manhã. ‘Vamos morar na França. Acho que estamos prontos’. Ele viu nos meus olhos que eu estava falando sério, e que eu sabia que a mudança não seria fácil. E eu vi nos olhos dele que ele ansiava por essa mudança há muito, muito tempo. E assim, despretensiosamente, começava a nossa Operação França.

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Foto tirada pelo Marido em Novembro de 2011, em Marseille.