No Poo Raiz – Lavando os cabelos só com água

PineappleExpress

Há 8 semanas lavei meu cabelo pela última vez com xampu. De lá prá cá, só água. Nada de cremes, condicionadores, sabão, óleos ou poções mágicas. Só água, e da torneira mesmo. Antes que vocês, queridos leitores, sintam-se felizes por estarem bem longe de mim, deixem-me explicar melhor.

A chamada técnica No Poo consiste basicamente em evitar xampus por causa dos produtos químicos, como sulfatos, parabenos e fragrâncias tóxicas. A teoria é que ao parar de lavar os cabelos com xampu, o nosso próprio organismo se ajusta e começa a produzir menos óleo. Mas infelizmente, não antes de uma chata fase de transição.

Minha primeira tentativa na onda do No Poo foi há uns 7 anos, quando me mudei para o oriente médio. Continuava com minha rotina de sempre, lavando os cabelos diariamente, até que eles espigaram e começaram a cair de um jeito absurdo (aqui o que escrevi na época sobre o assunto). Comecei a fazer o combo bicarbonato de sódio + vinagre de maça para higienizar os cabelos. Até funcionou para a limpeza, mas o vinagre era muito fedido e todo o processo era difícil – ficar esfregando bicarbonato de sódio no couro cabeludo parece tortura. Meses depois, desisti com os cabelos ainda mais destruídos.

Há quase dois anos, quando morava em Moscou, tentei novamente. Tinha ouvido falar desse método de usar só água e quis tentar. Segui os conselhos que li na internet na época e lavava duas vezes por semana, só com água, e usava talco nos outros dias, para “sugar” o óleo. De novo, foi uma trabalheira danada, pois o pente e a escova ficavam muito nojentos, com uma mistura cinza de toda essa sujeira acumulada. Meus cabelos brancos começaram a se multiplicar naquela época (obrigada, filhinha Caçula), e eu aproveitei uma ida ao salão para pintar e desistir mais uma vez do No Poo.

Até que nos primeiros dias do ano eu comecei a pensar que meu cabelo continuava caindo, que estava ressecado e mal pintado, enquanto minha bancada continuava cada vez mais cheia de produtos. Obviamente, não estava dando certo. Claro que além da água cheia de calcário da Europa e da água dessalinizada daqui do oriente médio, e da overdose de químicas durante muitos anos, também tenho a genética a meu desfavor. Na minha família, até as mulheres ficam carecas. Já estava pensando há um tempo em parar de pintar e assumir os grisalhos, e aproveitei para fazer uma resolução de ano novo e começar todo o processo de novo. A diferença dessa vez é que, provavelmente por não usar nada além de água, o processo de transição foi muito mais tranquilo. O que eu fiz? Vamos lá:

A Rotina

Depois de lavar com xampu pela última vez (xampu normal, o que tinha aqui em casa), continuei a lavar diariamente, mas só com água. Antes de entrar no banho, escovo bastante, por longos minutos, e massageio o couro cabeludo. No banho, deixo a água mais quente do que costumava, massageio, puxando o óleo para o comprimento do cabelo, e penteio com um pente fino. Tiro o excesso de água com a toalha e deixo secar naturalmente.

Mas não fede?

Nos primeiros dias, sentia um cheirinho de cachorro molhado no banho, sim. Pessoalmente, acho que essa é a parte mais difícil, a falta daquele cheirinho de xampu gostoso na hora do banho. Mas, se você massagear e escovar bastante, e enxaguar com frequência nas primeiras semanas, dificilmente vai feder. Na verdade, mesmo durante a fase de transição, acho que o cheiro é o mesmo de quando não lavamos a cabeça por dois dias. Fiz tanto o Marido como a Primogênita cheirarem meus cabelos e ambos falaram a mesma coisa: Não tem cheiro ruim, mas também não tem o cheiro bom de xampu. Não dá prá ter tudo, infelizmente.

A Transição

Durante esse período, que pode durar de 4 a 8 semanas, a situação é terrível. A raiz fica oleosa pois está acostumada a produzir bastante, e só a escovação e água não conseguem deixar do jeito que ficava. Na hora do banho, as mãos ficam com uma película de óleo do cabelo, o que não é muito agradável. Pentes e escovas precisam ser higienizados com frequência, pois fazem grande parte do trabalho que o xampu fazia antes. A boa notícia é que há uma luz no fim do túnel, e essa fase passa.

E então, vale a pena?

Acredito que sim, mas não é para qualquer um. Na prática, dá muito menos trabalho usar xampu diariamente e gastar uns segundinhos escovando do que se comprometer com o No Poo. O custo social de não cuidar bem e virar uma Maria Cascuda pode ser alto. No meu caso, valeu muito toda a trabalheira das seis semanas de transição, pois desde então meu cabelo mudou completamente. Está bonito, macio e brilhante, como nunca antes. Nunca mesmo. Antes estava poroso e cheio de frizz. Agora forma ondas suaves naturalmente. Além disso, ver todos aqueles potes de xampu e cremes substituídos por um pente e uma escova me dá uma satisfação enorme. Minha nova rotina é tão mais simples e sustentável, com menos consumismo e menos plástico e tóxicos no meu karma ambiental.  Ah, vale a pena, sim! E como!

*** Pessoal, vou desativar o blog eventualmente, mas como muita gente ainda aparece aqui para ver esses posts do Water Only, deixo aqui o link do texto para a minha página do Facebook:

Imigrantes e as pedras que rolam

Imigrantes e as pedras que rolam

Pedra que rola não cria limo, diz o ditado. Em algum lugar do mundo, algum imigrante pensa na vida que deixou, nos seus entes queridos. Talvez esteja feliz com sua decisão. Talvez não. Penso no limo e na sua ambiguidade. Limo que representa estabilidade, o fruto de uma vida calculada e segura… mas tantas vezes estagnada. Como imigrantes, somos as pedras lisas, em constante movimento. Mas nosso limo cresce sim, dentro de nós, alimentado com cada experiência mundo afora. Um limo impossível de nos ser tirado, pois nasce na nossa alma.

Ser um imigrante é saber que a partir do momento que partimos, não há mais um lar para voltar. Viramos estrangeiros do antigo ninho, estranhos no próprio berço. Observando de longe que no mundo que deixamos, o limo da vida continua a crescer forte e devagar, sem a nossa presença. François Rabelais, à beira da morte disse que ia buscar um Grande Talvez. Nós não esperamos essa hora chegar. Buscamos a incerteza e o desafio. Fazemos o mundo acontecer. Mudamos de lado, nos tornamos o Outro.

Em outras terras, nossos olhos brilham de fascinação e admiração ao mesmo tempo que choram de saudade e frustração. Ficamos confusos entre o nacionalismo e a universalidade. Escolhemos a Mãe Terra à Pátria Mãe. Revolucionários e humilhados. Sonhadores que não dormem. Necessários e odiados do lado de cá. Necessários e odiados do lado de lá. Vivemos a máxima de Einstein, abrindo nossas mentes para ideias novas e sabendo que elas jamais voltarão ao tamanho original. Rolling stones que agregam.

Somos híbridos. Mestiços não só de sangue, mas de cultura e de alma. Somos pedras que rolam, somos as pedras no caminho. Fazemos muito mais do que apenas construir castelos. Nosso limo une povos. Um brinde à nós, imigrantes, que transformamos pedras em pontes sobre muros. E com nossas vidas, construímos pontes entre nações.

O progresso linguístico da Primogênita

Ontem quando peguei a Primogênita na escola, ela me disse que tinha que contar uma história engraçada para a turma no dia seguinte. En Français. E estava super tranquila. À noite, nos contou a historinha que criou, e o Marido sugeriu a expressão ‘il était une fois’ para começar. O resto todo veio dela mesma. Lógico que ela ainda tem muito o que aprender, mas não deixo de ficar boquiaberta com o toda a linguagem que ela adquiriu em menos de 3 semanas na escola francesa.

Preparação – A Escola Francesa

Tomada a decisão, a primeira preocupação foi com a escola da Primogênita. Por mais que ela seja uma expert em mudanças (oito escolas diferentes em cinco países, em apenas nove anos de vida), por enquanto ela só tinha que se virar em português e em inglês. Uma olhada rápida nas mensalidades de escolas internacionais e bilíngues na França logo nos convenceu que elas não são para o nosso bico. Chegando lá, sabe-se lá quando, a bichinha vai ter que estudar em uma escola francesa pública, tudo en français mesmo.

E assim, poucos dias antes das férias de Natal, o Marido foi bater na porta da única Lycée Français da nossa cidade, implorar uma vaga para nossa menina. Explicou que cedo ou tarde iríamos para a França, e que gostaríamos que ela tivesse o máximo de exposição à língua e ao sistema antes de chegarmos lá de mala e cuia. Marcaram então de trazer a Primogênita na volta das férias para um dia experimental, e para fazer uns testes.

O Marido estava tenso, se sentindo culpado por todas as mudanças na vida das meninas por conta do estilo nômade de vida que escolhemos até então, e especialmente pela tarefa astronômica de ter que aprender uma nova língua na marra, como é o caso da Primogênita. Ela porém, amou a ideia desde o começo. Logo no primeiro dia, o da aula experimental, pediu para ficar de vez e nem voltar para a outra escola. Foi recebida com entusiasmo pelos colegas que até levantaram das carteiras para recepcioná-la quando ela foi apresentada pela professora. Estava impressionada com o fato de meninos e meninas brincarem juntos no intervalo, de fazerem natação ao mesmo tempo, e feliz da vida por não ter que usar calça comprida na aula de educação física (na escola que estava, usar shorts é um privilégio concedido aos meninos apenas).

Semana passada, depois de deixarmos lá o equivalente ao meu salário de um mês inteiro entre taxas, registros e o diabo a quatro, a Primogênita começou oficialmente seus estudos na escola francesa. Por enquanto, tudo tranquilo. Ontem ela chorou na sala de aula pois lembrou que teve um pesadelo na noite anterior em que eu havia morrido e me transformado em uma múmia. Disse estar preocupada pois algum coleguinha disse que os sonhos podem ser sinais do que irá acontecer no futuro. Eu tentei tranquilizá-la, falando que o sonho foi o resultado do subconsciente dela que viu o quando eu me deteriorei desde que a Caçula nasceu, mas que vou tentar me cuidar mais para que ela não me veja mais como uma múmia. Ela gargalhou, agradecida.

Ainda não conversamos com a professora pois foram só dez dias de aula, mas parece que a transição não será assim tão traumática. É cedo para ela reproduzir o francês, mas ela entende o suficiente para me contar tudo que fizeram e aprenderam no dia. E o mais importante, ela está muito feliz. Primogênita encaminhada, agora só falta a mãe dela criar coragem e começar a aprender a língua de Molière também…

O começo

Dezembro de 2016. Era uma manhã fresca e ensolarada em uma capital do oriente médio. O Marido abotoava a camisa e eu terminava de colocar a maquiagem. Estávamos cansados e desmotivados e ainda nem eram 7 da manhã. ‘Talvez devêssemos voltar para a França’ disse ele. Voltar, no caso, seria somente para ele, que é francês. Para a Primogênita, para a Caçula e para mim, seria simplesmente ir. Já havíamos discutido o futuro tantas vezes, sempre diminuindo o nosso exílio voluntário de pouquinho em pouquinho – ‘vamos ficar por aqui até a Primogênita terminar o ensino médio’, ‘pensando bem, poderíamos ir embora antes de ela começar o ensino médio’, ‘quem sabe só mais uns 3 anos até juntarmos um pé-de-meia razoável?’. A cada plano alterado sempre lembramos aquele ditado: “se você quer fazer Deus rir, conte a ele seus planos”, e seguimos em frente.

Dirigindo para o trabalho percebi que nunca havia considerado morar na França como uma alternativa real. Lógico, nos nossos planos mirabolantes a aposentadoria seria sucessíveis períodos de seis meses em Marseille e em Londrina, ou em Lyon e alguma praia do nordeste, para um perfeito equilíbrio entre cidade e mar. Seis meses de primavera e verão na França, e depois mais seis meses de primavera e verão no Brasil. Parfait! Mas isso era prá aposentadoria e ela está longe (não tão longe quanto estaria no Brasil depois dessas reformas, mas ainda assim, bem longe).

Durante o dia, em meio ao tsunami de alunos vindo à minha mesa reclamar de suas notas, refleti que uma mudança para a França seria o fim da minha carreira como professora universitária. Dolorido, mas não necessariamente ruim. Seriam anos até eu aprender a nova língua a um nível decente. Por outro lado, morar na França significaria uma estabilidade para nossa pequena família. Um enfim ‘estar em casa’, mesmo que nunca tenha sido minha casa. Mesmo que talvez nunca venha a ser de fato. Mas um lugar para criar raízes depois de anos como profissionais mercenários, pulando de país em país. Talvez tenha chegado a nossa hora de ir e de voltar. Peut être.

À noite, quando o Marido chegou, eu disse: ‘ok, então vamos!’. Ele me olhou confuso, nem lembrava mais do que tinha dito de manhã. ‘Vamos morar na França. Acho que estamos prontos’. Ele viu nos meus olhos que eu estava falando sério, e que eu sabia que a mudança não seria fácil. E eu vi nos olhos dele que ele ansiava por essa mudança há muito, muito tempo. E assim, despretensiosamente, começava a nossa Operação França.

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Foto tirada pelo Marido em Novembro de 2011, em Marseille.