Como consumir menos carne, mesmo quando sua família adora um churrasco

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Se tem um grupo de pessoas que eu admiro muito são os vegetarianos e veganos. Quanta disciplina e força de vontade para seguir seus princípios num mundo ainda tão pouco interessado em sustentabilidade e benevolência para com os animais. Dizer nunca mais para carne é difícil. Muito difícil! E quando o resto da família não faz questão de evitar, ou ainda, quando o resto da família ama comer carne, a hora das refeições pode virar um momento frustrante para todos os envolvidos. E se você, irresponsavelmente, acabar no hospital com uma anemia descrita pela médica como ‘só antes vista no tempo de residente numa vila paupérrima da Índia’, a pressão familiar para encher o prato de carne aumentará. Mas durante os últimos anos conseguimos encontrar um equilíbrio no nosso consumo, reduzido à mais ou menos 2 frangos e dois quilos de carne por mês, para nossa família de quatro pessoas (não inclui refeições feitas fora de casa). Abaixo, algumas dicas para reduzir o consumo de carne que funcionaram com a gente:

  • Das seis refeições que fazemos juntos em casa por semana, três são vegetarianas e três incluem carne. Quando comemos fora, cada um come o que quer. No almoço, a Primogênita come na cantina da escola (que serve carne), e o Marido come ou o que sobrou da janta quando tem, ou qualquer coisa perto do escritório dele.
  • Faço um frango inteiro durar três refeições, para nós quatro: uma com as coxas e sobrecoxas, uma com o peito, e a outra com a carcaça e o resto da carne, que geralmente vira base para sopa.
  • Faço um quilo de carne também durar três refeições: um panelão de molho de tomate com carne moída, que depois divido em três porções e uso no macarrão, na lasanha, no escondidinho. Ou uma receita de Boeuf Bourguignon com uma proporção maior de legumes, que dá bastante molho. Divido em três partes e congelo duas no dia que faço. Assim, a quantidade de carne consumida em cada prato é consideravelmente menor que a porção ‘padrão’, mas ainda está lá.
  • Como a quantidade de carne é reduzida, vemos ela mais como um acompanhamento do que como prato principal. É mais fácil adaptar as proporções do que ver ela desaparecer de vez.
  • Sempre que encontro compro frango free range, aqueles que vivem livres antes de serem abatidos. Em Dubai achava fácil, mas infelizmente aqui em Mascate é raro encontrar. Custam bem mais caro, mas acredito que o mínimo que podemos fazer é estimular essa indústria (sorry, Sadia).
  • Um truquezinho psicológico: um sobrinho adorou uma batata com salsinha que eu fiz, e desde então eu chamo aquela receita de ‘Batata do Théo’. A Primogênita então quis porque quis ter um prato vegetariano especial dela, e por fim acabou escolhendo uma massa com molho de brócolis, que só pode ser chamada de ‘Penne da Primogênita’. Assim, por algum motivo, parece que o dia que tem o ‘Risoto de abobrinha da Mamãe’, o ‘Ratatouille do Papa’ ou a ‘Torta de legumes da vovó’, o jantar parece extra especial. A Caçula ainda não tem um prato dela pois ainda não sabe se pronunciar.
  • Aproveitamos para experimentar pratos vegetarianos de países diferentes, principalmente indianos pois existe uma comunidade grande aqui.
  • Outro truque (ou golpe baixo, segundo o Marido), é que eu só faço sobremesas no dia das refeições vegetarianas. A ideia é desavergonhadamente clara no propósito de alegrar as noites sem carne.
  • Conversamos bastante sobre o porquê de estarmos fazendo isso. A carne no nosso prato, e a ausência dela, nos convida a falar sobre Gratidão, sobre Ética, sobre Sustentabilidade, sobre Direitos e Deveres, sobre Nutrição, sobre Crueldade. Sobre a real vontade de comer uma picanha inteira de vez em quando, e sobre consumo consciente. Sobre a necessidade de sairmos da nossa zona de conforto e darmos passos, mesmo que pequenos, em direção à um mundo melhor.
  • E quando (raramente) reclamam eu ameaço nunca mais fazer nenhum tipo de carne, digo que vou fazer minhas malas e ir embora, ou que vou me jogar da janela, ou que a cozinha está aberta para quem quiser cozinhar, ou que quem não quiser comer que vá dormir com fome e espere a próxima refeição no dia seguinte. Super democrático e sempre funciona.

E bora fazer um creme de alho porró e batata para a janta!

Brasileiras Pelo Mundo – Lecionando em Omã

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Saiu meu primeiro texto para o Brasileiras Pelo Mundo, sobre o mercado de trabalho para professores de inglês aqui em Omã. Fiz questão de colocar ênfase nos aspectos negativos, mas não posso negar que a vida aqui e’ tranquila. Sentirei saudades quando formos embora…

http://www.brasileiraspelomundo.com/oma-lecionando-no-oriente-medio-561652577

Conto Árabe – O Jovem que carregava seus pais

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pixabay

Aqui em Omã o Dia das Mães é celebrado em março. Para comemorar a data aqui vai mais um conto do folclore Omani, baseado no livro Omani Folk Tales, de Hatim Al Taie e Joan Pickersgill, e nas versões dos meus alunos.

O Jovem que carregava seus pais

Há muitos e muitos anos, vivia no pequenino vilarejo de Amerat, próximo a Mascate, um bondoso jovem. Seus pais eram muito velhos e frágeis, e o rapaz tudo fazia pelo seu bem-estar. Eles eram tão fracos e debilitados que o jovem os levava junto de si por onde quer que fosse, em grandes tapetes que ele tecia com folhas de palmeiras, um para cada. Amarrava um jugo nos seus ombros e pescoço para aguentar o peso, e levava os pais, um de cada lado, enquanto cuidava dos seus afazeres.

Um certo dia, ouviu o casal falando baixinho, e horrorizado descobriu que seus pais estavam tramando sua morte, planejando come-lo em seguida. Naquele momento percebeu que seus pais eram sa’hara, feiticeiros perigosos. Desolado, o jovem chorou sem saber o que fazer. Foi então que decidiu ir até a cidade de Medina, pedir conselho ao grande profeta Maomé. Deixou seus pais sob os cuidados de outros parentes, cuidando para que eles não percebessem que ele havia descoberto seu segredo, e juntou-se a uma caravana rumo à grande Medina.

Em lá chegando, foi imediatamente a procura do profeta e contou-lhe sua história. Maomé ouviu suas palavras com cuidado, pensou, e enfim disse ao jovem:

“Faça o que quiser com seu pai. Mate-o até, caso ele venha ameaça-lo e atentar contra sua vida. Mas sua mãe, não importa o que ela faça, seja matá-lo, comê-lo ou seja lá o que for, jamais toque em um fio sequer de seus cabelos. O paraíso está aos pés de sua mãe.

O profeta ainda falou ao jovem que o vínculo com sua mãe era como o cordão umbilical, tão forte que jamais poderia seria cortado.

 

Nota da tradutora que vos escreve: Esses contos Omanis são deliciosos de ler, seguindo o estilo das Mil e Uma Noites. Infelizmente (para os nossos padrões atuais) a maioria acaba assim, sem um desfecho claro. Perguntei aos meus alunos o que o jovem fez ao voltar para Omã e eles disseram que não importa, o que vale é a mensagem do profeta Maomé sobre nosso dever para com nossas mães – mesmo que elas queiram nos comer.

O gênio da praia de Yiti

Não muito longe de Mascate, banhado pelo Mar da Arábia, existe um pequeno vilarejo chamado Yiti. Durante séculos sua população viveu relativamente isolada, pois o acesso a outras partes do país era difícil. Conta a lenda que um dia os pescadores acordaram e se depararam com uma grande formação rochosa na praia, vinda do nada. Essas rochas, de cor e textura diferentes das outras ao redor e brotadas na areia de um dia para o outro, logo fizeram os habitantes perceber que se tratava de uma obra divina. A notícia logo se espalhou e o vilarejo começou a receber pessoas de toda a região, que faziam o difícil trajeto a fim de visitar as rochas, que eram o lar de um gênio* bom e sábio chamado Xeique Sam’un.

Histórias de milagres se multiplicavam e pequenas multidões vinham fazer suas súplicas ao bom gênio. Acreditava-se que ele tinha o poder de ajudar mulheres estéreis a conceber e elas vinham esperançosas rogar por sua ajuda. Visitantes traziam roupas, doces e cabras como oferendas para Xeique Sam’um. Alguns escalavam as rochas e queimavam incenso lá em cima para afastar os maus espíritos antes de iniciarem suas preces e pedidos.

Um dia, um avião chegou e começou a bombardear as rochas, na intenção de destruí-las. Como por milagre, nenhuma bomba atingiu o alvo. Xeique Sam’um havia criado um escudo invisível para proteger seu lar das bombas que caíram ao redor, no mar, diziam os pescadores. Os anos se passaram e um dia o asfalto chegou até o pequeno vilarejo de Yiti. A estrada começou a trazer muito mais gente, de costumes e hábitos diferentes ao que o gênio julgava apropriado, e por isso ele resolveu partir para sempre. Segundo os pescadores, Xeique Sam’um hoje vive em um lugar secreto, sem ser importunado pelas multidões e seus problemas mundanos.

Muitos outros anos ainda se passam e nesse último fim de semana o Marido e eu nos aventuramos até Yiti. Eu, por estar louca para conhecer o lugar depois de conhecer a lenda ** e o Marido pela oportunidade de dirigir pelas ‘quebradas’ com um 4×4 – nunca entenderei os homens. Sorte do gênio que ele se mudou faz tempo, pois a estrada de Mascate até Yiti é uma beleza. Tão boa que o Marido sofreu até achar uma estradinha off road para se divertir. E eu descobrir que o carro tinha dois puta-que-parius e acabar com a brincadeira dele. Chegando na praia, é impossível não se impressionar com as rochas de Yiti. Elas realmente parecem não pertencer ao local. Fiquei imaginando as rochas cheias de peregrinos em tempos remotos, trazendo com eles suas aflições e esperanças. Hoje, apenas uns poucos turistas. Gente como eu, com os tais costumes inapropriados que fizeram o gênio partir…

Na universidade hoje de manhã perguntei aos meus alunos do curso de Geologia o porquê das rochas serem assim tão diferentes. Ninguém sabia. Perguntei sobre o gênio, se eles conheciam a história. Ninguém sabia nada. Levaram uma bronca pela falta de interesse no próprio folclore. Nem ligaram. Me perguntaram se eu acreditava em gênios e eu tive que fazer umas manobras linguísticas para não ofende-los, pois descobri que eles fazem parte da crença islâmica tanto quanto anjos e demônios (não sabia, aprendi hoje).

Depois da aula um aluno veio me procurar. Olhou para os lados, sério, e falou baixinho: ‘Professora, eu tenho um livro que ensina como controlar os gênios. É só seguir as instruções e eles são obrigados a te obedecer. Serão seus escravos. Quer que eu traga para você?’ Olhei prá ele e falei: ‘Habibi, eu já tenho você e os seus outros quarenta colegas, duas filhas e um marido atrás de mim o dia inteiro me perguntando o que fazer. A última coisa que eu preciso é de gênios me importunando também. Mas obrigada pela proposta. E não esqueça de fazer o homework para amanhã’.

Sábio foi o Xeique Sam’um que se isolou do mundo quando pôde.

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Arquivo pessoal – Yiti Beach, Março de 2017.

 

* Na mitologia árabe, os jinnis são seres sobrenaturais que podem ser bons ou maus, e tem o poder de interferir na vida dos humanos. Em português, a tradução mais comum é de gênio, como o do Aladim, mas eles não vivem necessariamente em lâmpadas mágicas.

** Do livro Omani Folk Tales, de Hatim Al Taie e Joan Pickersgill.

No Poo Raiz – Water Only – Só Água (outras considerações)

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Então vamos falar de cabelos de novo. Fiquei surpresa com tanto interesse no assunto depois que escrevi sobre a minha pouco ortodoxa rotina capilar. Não sou especialista em cabelos (aliás, em nada). Sou apenas alguém que se interessou por métodos alternativos e desistiu duas vezes até encontrar algo que funcionasse, e que ficou tão feliz com o resultado que resolveu compartilhar a experiência. Vou tentar condensar aqui as principais questões levantadas nos grupos onde o post foi compartilhado.

Nomenclatura

No Poo significa sem xampu. Low Poo refere-se a xampus sem sulfato. E Water Only significa, literalmente, só água. Para ser sincera, fiquei surpresa ao ver a quantidade de produtos que os seguidores do No Poo no Brasil usam. Produtos “liberados”, “co-wash”, “cabelo 3 a, 4 c”, “cronograma capilar”… fiquei boiando com todos esses termos novos para mim. Isso porque me familiarizei com o No Poo em sites mais naturebas, onde os adeptos substituíam o xampu por bicarbonato de sódio e vinagre (update: como a Bela Gil está fazendo), argilas e outras receitinhas orgânicas. Por isso cunhei a expressão No Poo Raiz, para diferenciar do método No Poo usando produtos industrializados. Tecnicamente falando, minhas primeiras semanas foram estritamente Water Only, só água, mas prefiro o termo genérico pois possivelmente usarei outros produtos naturais no futuro.

Como começar?

Eu fui direto para a água, mas quem estiver com receio pode começar com o Low Poo. Se você estiver usando produtos com silicone por muito tempo talvez seja melhor dar umas lavadas com xampu normal para tirar todos os resíduos antes de começar. Tire os frascos do banheiro para evitar  esquecer e encher a mão de xampu (aconteceu comigo). Prepare os elásticos, presilhas e faixas de cabelo pois eles serão seus melhores amigos durante a fase de transição. Prepare-se também para trocar a fronha do travesseiro com mais frequência.

Qual o melhor método?

Não tem. Tudo depende do seu tipo de cabelo, do tipo de água onde você mora, do seu estilo de vida e da sua motivação. O que funciona para um não necessariamente funcionará para outro. Eu comecei com o No Poo inspirada pela blogueira Ariana, do www.paris-to-go.com. Ela lava uma vez por semana, as vezes menos, com água previamente fervida. Eu só consegui sobreviver aos dois primeiros meses lavando diariamente, e só agora estou começando a espaçar as lavadas. E ferver água antes de cada lavada seria inviável no meu caso. Além disso, o melhor método agora pode não ser sempre o ideal, pois nossos cabelos mudam, assim como nossos hormônios e nossas rotinas. Não é uma ciência exata. Precisamos ir tentando até achar uma rotina que dê certo no nosso caso.

Mas como você faz?

No começo eu penteava muito com um pente fino (quase como aqueles de catar piolho), pois ficava mais fácil acumular sujeira e o óleo ali. Depois usava uma escova de dentes velha para limpar. Na prática significa tirar manualmente o que o xampu fazia antes. Na hora do banho, massageava bem o couro cabeludo, puxando o óleo para o comprimento dos fios, e depois passava o pente do lado mais grosso. Agora quase não uso mais o pente pois não vejo mais necessidade. Continuo escovando e massageando bem, pelo menos duas vezes ao dia.

Ah, mas isso não funciona com cabelos cacheados!

Pois é, parece que não mesmo. Cabelos crespos e cacheados pedem uma rotina diferente. O interessante é que o movimento No Poo começou justamente com o pessoal cacheado e crespo. O site da Giovanna (link aqui) é cheio de dicas e vídeos para cuidar das ondas de forma natural. Além disso, ela parece a Merida da Disney, e me faz ter vontade de ser uma boa moça para pedir cabelos cacheados na próxima vida. Outro site excelente é o cacheia.com, uma verdadeira enciclopédia online no assunto.

Da prá fazer se os cabelos estiverem tingidos?

Eu resolvi voltar para o No Poo quando decidi parar de pintar e assumir os brancos que vierem, então não saberei explicar em primeira mão o que fazer depois de uma tintura. Convido quem tem essa experiência a dividir isso com a gente lá nos comentários.

Isso não é lavar os cabelos, e sim só molhar.

Não, é lavar sim pois é essencial massagear as raízes, como se estivesse mesmo usando xampu. Se você simplesmente molhar imagino que vai ficar com um cheiro de cachorro molhado absurdo, além de possivelmente criar um ambiente propício a doenças capilares. Aderir ao No Poo dá muito trabalho no começo, especialmente no que se refere a massagear o couro cabeludo. Busquemos uma vida mais natural e sustentável, mas sem virarmos Marias Cascudas, né?

Ah, mas só água e massagens com os dedos não tiram o óleo!

Não tiram tudo, mas ajudam MUITO. Ao massagear o couro cabeludo, ajudamos a sujeira a se soltar dos fios e a água quente ajuda a levar embora. Nas primeiras semanas, tinha que parar a massagem para lavar as mãos com sabonete, pois ficava com uma luva de sebo. Sem xampu para quebrar as moléculas de gordura, precisamos dos dedos, da água, de pentes e escovas e do que for necessário para controlar a oleosidade até o couro cabeludo normalizar. E a propósito, a ideia é justamente NÃO tirar todo o óleo do cabelo – senão usaríamos xampu.

Mas será que é realmente uma prática mais ecológica e sustentável?

Esse é um ponto interessante. Há alguns anos eu tentei usar alternativas mais greens para a limpeza da casa e das roupas e comecei a usar savon de marseille e sabão de côco no lugar de detergentes. Desastre total. A qualidade da água hoje em dia é diferente de antigamente, quando o bom e velho sabão era suficiente. Tentar lavar roupas com sabão hoje em dia acaba por ser pior para o meio ambiente, pois precisamos de mais água, e mais quente, para conseguir o resultado esperado. Por outro lado, quando se trata do nosso próprio corpo existem outras coisas a serem consideradas, como a quantidade de produtos químicos presentes nos xampus, e mesmo nos produtos Low Poo. Para um No Poo Raiz eficiente, você provavelmente vai precisar deixar a água do banho mais quente do que o habitual, o que não é muito ecológico. Nas primeiras semanas, deve gastar mais ou menos o mesmo tempo massageando os cabelos debaixo do chuveiro como quando lavava com xampu. Por outro lado, conforme seu couro cabeludo se estabilize e produza menos óleo, o seu consumo de água deve diminuir na mesma proporção. Isso sem falar nas embalagens dos produtos que você vai deixar de usar, claro.

E o cheiro, como fica?

Essa parece ser a maior relutância em relação ao método. Também era a minha maior preocupação, sem dúvida. Mas sinceramente, se você seguir os cuidados recomendados, não vai feder. Talvez não goste de sentir o seu próprio cheiro, mas daí a feder é outra história. Comparo com o cheiro de uma cabeça não lavada há dois dias no começo – por sorte o cheiro não é proporcional aos dias sem xampu! Além disso, cheiro de cabeça não é nem de longe tão ofensivo como cheiro de sovaco sem desodorante ou de bunda mal lavada. Se suar muito, lave mais vezes, pelo seu bem e dos outros ao seu redor. Mas no geral, fique tranquilo. Mesmo.

Que tipo de mudança dá prá notar nos cabelos depois do período de transição?

Os meus estão muito macios e fáceis de pentear. Formam ondas suaves naturalmente, o que não acontecia antes. A textura é diferente de quando lavamos com xampu, eles não ficam leves e esvoaçantes – dá saudades disso, confesso. Por outro lado, é justamente essa textura que define as ondas. Noto também que demoram mais para secar naturalmente, e que as pontas continuam mais ressecadas do que o comprimento – provavelmente por conta da água dessalinada daqui de Mascate. Também está muito mais volumoso, e sem frizz.

Se um pterosauro passar voando e fizer um cocô enorme na minha cabeça, posso usar xampu e depois voltar ao método?

Pode, amigo. Aliás, até se um passarinho fizer. Aliás, até se você cansar e enjoar da rotina. Isso não é uma seita cuja saída implique numa morte lenta e dolorosa. É apenas um método alternativo de higiene, que pode ou não ser interessante para você. Mas já que você se deu ao trabalho de ler tudo isso até aqui, te convido a experimentar. Talvez você também se surpreenda com os resultados e saia por aí com os cabelos lindíssimos e brilhantes, como nunca antes. E depois venha me contar os resultados nos comentários!

Ui, credo, que nojeira! Isso é muita imundice! Vocês são muito porcos!

Então… Pois é.

Abraços e lindos cabelos para todos nós!

Ah, ela é hiperativa, né?

Ah, ela é hiperativa, né-

Mamã! Mamã! Abro os olhos e ainda está escuro. Estou numa cama que não é a minha e não me lembro de como vim parar aqui. Penso que isso é um bom sinal, quer dizer que fiz a minha rotina da noite em modo automático: ela acordou, chorou, eu vim até seu quarto, deitei com ela e acabei dormindo junto. Sim, foi uma noite excepcionalmente boa. Não posso reclamar. Não teve xixi na cama, não teve nariz entupido, não teve pesadelos, não teve seja lá o que for que a faz ficar acordada na madrugada com tanta frequência. Mas não são nem 5 da manhã ainda. Da mesquita da esquina vem o som do Adhan, a chamada para a primeira oração do dia. O galo do vizinho também já está cantando. Ah, o que eu não daria por uma horinha de sono a mais. Mas durante esses breves segundos de divagação ela já puxou a caixa de brinquedo para a parede e está se divertindo ligando e desligando a luz. E começa um novo dia…

Vou para o banheiro e levo ela junto. Sento no vaso e ela vai direto procurar o xampu. Está lá no cantinho da banheira, estrategicamente longe do alcance de mãozinhas curiosas. Ou melhor, estava, pois ela acaba de descobrir que consegue chegar lá se apoiando na pia. Impotente, vejo o frasco sendo apertado e o xampu escorrendo na banheira. Ainda bem que estou fazendo o No Poo Raiz, penso. Chego para o resgate, lavo as mãozinhas e a coloco no chão enquanto tento limpar um pouco a banheira. Quando viro a vejo tomando água diretamente da duchinha ao lado do vaso. Meu grito acorda o resto da família.

Tomamos café ao som da Galinha Pintadinha. A Primogênita chora ao ver que a Caçula tirou e espalhou pelo quarto todos os seus livros da mochila da escola. Quem mandou deixar a mochila ao alcance dela? digo eu, ciente de estar culpando a vítima. Semana passada a professora não achou graça quando ela disse que a irmãzinha tinha, literalmente, comido seu dever de casa. O Marido consegue mantê-la ocupada enquanto começo a me arrumar, mas acabo terminando de passar a maquiagem com a pequena nos braços. Como sempre, desisto do rímel. A babá chega e respiramos aliviados. Principalmente a bebê, pois sabe que chegou a hora de ir ao parquinho.

Chego no trabalho aliviada por não ter hematomas aparentes. Já cheguei com o lábio mais grosso que o da Angelina Jolie, quando uma cabecinha revoltada me acertou em cheio. Mordidas nos braços, beliscões… Ninguém pergunta, mas notam. Os colegas com filhos comentam o que fizeram no fim de semana. Piscina, restaurantes, piqueniques no parque. Nós passamos o fim de semana tentando impedi-la de se matar. Ah, ela é hiperativa, né? diz a recepcionista do hotel enquanto a bichinha se desvencilha dos meus braços e derruba a tabela de preços do balcão. Ponho ela no chão para pegar a carteira, procurando o Marido que está chegando com as malas. Ele larga tudo no caminho mas não consegue chegar antes dela na bagagem de outros hóspedes, que caem como dominós no lobby. Na piscininha de bebês, o Marido se empenha e se diverte junto. Sentada num banco ao lado, fecho os olhos para sentir o sol. Um momentinho de paz. Abro-os ao som de um grito desesperado do Marido e vejo a pequena correndo a todo vapor em direção à piscina grande. O salva-vidas, rápido, já correndo ao seu encontro. Adultos na piscina já nadando em direção a onde ela cairia. Senhoras ao redor prendendo a respiração, mãos na boca e no peito. O Marido aparece voando, agarrando-a pelo braço centímetros antes da queda. Todos respiram aliviados, nenhum ferimento dessa vez. Que ideia de jerico a nossa de achar que poderíamos nos divertir com a bebê na piscina.

Ainda é cedo para fazer um diagnóstico de hiperatividade, diz a pediatra na França ao vê-la tentando pular de uma cadeira para outra do consultório aos 10 meses de idade. Nem tinha tocado no assunto. Tinha ido lá só para a vacina. Essa agitação toda pode ser falta de ferro, diz outro pediatra em Omã, ao vê-la se jogar no chão depois de tentar escalar a mesa. E eu que achava que falta de ferro deixava a gente sem energia. Lá vamos nós então dar suplemento para a bichinha. Vai que dá certo e ela se acalma. Tô aceitando todos os conselhos. Não pode dar comida com corante alaranjado. Tirei tudo amarelo e vermelho também. Ela deve comer muito açúcar, né? Aproveitei e cortei o sal também. Vocês devem estar fazendo alguma coisa errada, não é normal criança nessa idade não dormir. Obrigada, já não passa um minuto sem que eu lembre que devo estar fazendo alguma coisa errada. Se ao menos eu soubesse o quê! Reze, peça ajuda a Deus. Já fiz isso também. Pessoas com mais cacife com o Todo Poderoso também. Mas ela continua com formigas na fralda. Penso naquelas histórias de pacto com o tinhoso. Cadê ele que não me aparece com uma proposta? Minha alma por noites de sono ininterruptas. Tô aqui facinha, facinha… O fulano tinha um filho assim como a sua, e acabou medicando o menino pois ele estava colocando a própria vida em risco. Ok, nem tanto. Vou tentar óleo de lavanda e camomila de novo. Vai que dessa vez dá certo…? Viu a história da criança que caiu da sacada do prédio e morreu¿ Não quero saber. Com a Caçula nasceu junto um pavor de perde-la. De não ser rápida o suficiente. De um dia chegar tarde demais.

Volto prá casa apreensiva. Como terá sido o dia dela? Será que está inteira? Mês passado ela arrancou a maçaneta do quartinho, ficando trancada com a babá por mais de uma hora, até a Primogênita chegar da escola e chamar o rapaz da manutenção do prédio. Encontrei a babá chorando, com os dedos ensanguentados por tentar abrir a porta. Outro dia tive que correr para o pronto-socorro depois de ela queimar o bracinho com água do bebedouro da casa da vizinha, debaixo dos olhos de dois adultos. Hoje o dia foi tranquilo, só os machucados habituais diários. Todo dia um hematoma novo, um corte novo, um arranhão novo. Esse foi batendo a cabeça ao correr atrás de um gato, aquele ao escorregar na grama, aquele outro tentando subir no poste de luz.  A babá só reclama das outras babás do prédio. Está ofendida pois elas não acreditam que a nossa bebê nem tem 2 anos ainda. Acham que ela está mentindo a idade para “se vangloriar”. Cada uma…

Tomo um banho rápido e a babá vai embora. O banho da bebê, que costumava ser uma atividade relaxante virou um jogo rápido desde que ela começou a insistir em mexer nas torneiras. Para ela, uma brincadeira, para mim, um novo temor de não ser rápida o suficiente e ela acabar escaldada. Vou preparar o jantar. Macarrão com molho pronto de novo. Nem dá vontade de começar. Ela puxa uma cadeira e vai brincar na pia. Coloco umas louças de plástico e ela se diverte. Viro para olhar a panela e nesses dois segundos, DOIS SEGUNDOS, ela alcança o detergente do outro lado do balcão e está com ele na boca. Corro prá lavar sua boquinha, me sentindo um fracasso. Peço ajuda para a primogênita para olhar a irmã enquanto escorro a água do macarrão. Mal termino e vejo a cozinha coberta de grãos de arroz. Um dos poucos alimentos ainda guardados no balcão de baixo, um saco de arroz fechado, não sobreviveu aos dedinhos da Caçula. Respiro fundo. Quantos milhares de grãos estão ali? Agora um pouco menos pois ela já pegou um punhado e está a caminho do tapete da sala. Uma hora e meia ainda até o Marido voltar do trabalho. I will survive. Aquela coisa amarelada na cortina é papinha ou cocô? Banho de novo. Bendita Peppa Pig e santa mamadeira que me dão a oportunidade de acariciar minha menina por uns instantes. Mas logo ela já esta em cima da mesa e o tablet estraçalhado no chão. Oh no, diz ela, contemplando os estilhaços.

Hora de dormir. O Marido vai ajeitar a cozinha e ajudar a Primogênita com o devoir. A Caçula e eu vamos para o quarto. Tranco a porta, apago a luz, canto baixinho a música que fiz para ela. Durante uma hora ela pula do colchão para o chão, do chão para o colchão. Se joga na piscina de bolinhas, pega a aranha de plástico e faz ela subir a parede cantando Itsy Bitsy Spider. Enfia o dedinho no meu umbigo, morde minha canela, tira tatu do nariz e põe no meu cabelo. Dá cambalhotas e ri alto. Bate a boca no meu joelho e chora. Vai para a janela e dá tchau para os carros na rua. Até que vira e me procura. Põe a cabecinha no meu braço e se aconchega junto a mim. Decidida, coloca minha mão no seu peito. Põe sua mãozinha dentro do meu sutiã. Me olha, já meio adormecida, e dispara 3 inesperados beijinhos no meu ombro. Um, dois, três. E dorme. Talvez ela não só precise de mim. Talvez ela me ame também. E eu então brinco de mamãe de comercial de tevê, com minha cria tranquila nos braços. Cheiro seus cabelos, acaricio seu rosto, beijo suas mãozinhas. Pressiono com meus lábios todo o amor do mundo na sua testinha suada. Perdoe a mamãe por estar sempre tão cansada. Perdoe a mamãe por não conseguir acompanhar o seu ritmo.

Vou ver a Primogênita em sua cama. O Marido me espera com um longo abraço. Desabo no sofá para ganhar massagem nos pés. Lembro que durante o dia pensei que poderíamos assistir a um filme, ou ter uma noite romântica, ou simplesmente conversar um pouco. Rio de tamanha ambição e logo adormeço também, enquanto posso, pois o ciclo de sono da pequena é tão rápido quanto suas perninhas. Quem sabe amanhã… quem sabe…

 

Quando o rosto feminino ofende e o ânus entretém

Duas caixas em uma prateleira da Virgin Megastore chamaram minha atenção. Parei, peguei cada uma. O mesmo produto, um cobertor com mangas e um bolso frontal. Em uma das caixas, a modelo sorridente, aconchegada num sofá, com um tablet na mão. Na outra, a mesmíssima foto, mas com o rosto da modelo pixelado – um frase em árabe nessa segunda caixa logo me faz entender o porquê da alteração. Já no meu quinto ano morando no oriente médio, não posso dizer que nunca tinha visto isso antes. Na Arábia Saudita, o normal é ver produtos com fotos femininas rabiscadas com tintas pretas, cobrindo antebraços, canelas, cabelos e tudo o mais que possa trazer maus pensamentos aos virtuosos varões sauditas. Por outro lado, ver aquele rosto deliberadamente escondido, como se fosse algo vergonhoso, em plena Mascate me deixou abalada. Depois da Ikea deletar mulheres dos seus catálogos, agora a Virgin Megastore também está cobrindo rostos femininos? Escrevi para a página deles no facebook: “Por favor, me ajudem a entender por que vocês estão vendendo esse produto. O rosto feminino é algo assim tão ofensivo?”. Responderam rápido, dizendo que a foto foi alterada pelo próprio fabricante e não por eles. Mais tarde escreveram que o produto foi tirado da loja depois da minha primeira mensagem e que eles respeitam a cultura e a legislação de cada região em que operam. Então, tá.

E aí chega o carnaval e na minha timeline aparece uma mulher pintada de verde, mostrando o fiofó para a câmera. Tanto bafafá sobre o assunto e tudo que eu consigo pensar é que estamos em 2017 e tantas mulheres ainda tem como objetivo de vida serem admiradas pelos seus atributos físicos. Enebriadas com a  oportunidade de rebolarem na tevê. Penso em todo o nosso sistema cultural que produz esses casos. Anseiam os holofotes nas suas bundas como as daqui anseiam pelo vento nos seus cabelos. Eu entendo e apoio as feministas que se opõem a sexualização e objetificação do corpo feminino. Também entendo e apoio as que buscam a liberdade de exporem seus corpos como quiserem, assim como é permitido aos homens. Feminismo diz respeito a liberdade, a escolhas, como diz Emma Watson, fuzilada nessa semana nas redes sociais por estar com parte dos seios de fora. Nunca assisti Harry Potter, mas ouvi-la como Embaixadora da ONU Mulheres há uns anos fez um cisquinho cair no meu olho. Hoje, quando minha Primogênita de 9 anos me perguntou o que eu achava dela, assistimos juntas ao seu discurso.

Da minha parte, tudo que eu gostaria é que o ser mulher deixasse de ser um evento. Que deixássemos de ser o Outro. Que deixássemos de ser seres linguisticamente e culturalmente marcados. Simplesmente, que ser mulher pudesse realmente ser uma coisa normal. A realidade porém, está mais perto da rajada de xingamentos que ouvi de um saudita em um shopping de Jedá quando meu lenço escorregou e expôs meus cabelos. Está mais perto da cara de horror e vergonha de uma amiga quando eu resolvi ir à piscina do clube em Londrina usando um maiô de perninha. Estamos sempre erradas. Somos erradas. Nesse dia internacional da mulher me sinto especialmente desmotivada. Entre goleiros assassinos em liberdade e políticos poloneses confortáveis em seus discursos de ódio, parece-me que o futuro nunca vai chegar. Sinto por minhas meninas que ainda nem imaginam o que está por vir. Pois a vida nos ensina que quando um homem é oprimido e subjulgado, é uma vergonha, uma tragédia, um escândalo. Mas quando a vítima é uma mulher, é simplesmente a cultura, é a tradição… Sejam elas vestes negras ou tinta verde.

2016-12-29 13.14.28
Cobertores da marca Kanguru, a venda em Janeiro de 2017 na Virgin Megastore em Mascate, Omã.