O gênio da praia de Yiti

Não muito longe de Mascate, banhado pelo Mar da Arábia, existe um pequeno vilarejo chamado Yiti. Durante séculos sua população viveu relativamente isolada, pois o acesso a outras partes do país era difícil. Conta a lenda que um dia os pescadores acordaram e se depararam com uma grande formação rochosa na praia, vinda do nada. Essas rochas, de cor e textura diferentes das outras ao redor e brotadas na areia de um dia para o outro, logo fizeram os habitantes perceber que se tratava de uma obra divina. A notícia logo se espalhou e o vilarejo começou a receber pessoas de toda a região, que faziam o difícil trajeto a fim de visitar as rochas, que eram o lar de um gênio* bom e sábio chamado Xeique Sam’un.

Histórias de milagres se multiplicavam e pequenas multidões vinham fazer suas súplicas ao bom gênio. Acreditava-se que ele tinha o poder de ajudar mulheres estéreis a conceber e elas vinham esperançosas rogar por sua ajuda. Visitantes traziam roupas, doces e cabras como oferendas para Xeique Sam’um. Alguns escalavam as rochas e queimavam incenso lá em cima para afastar os maus espíritos antes de iniciarem suas preces e pedidos.

Um dia, um avião chegou e começou a bombardear as rochas, na intenção de destruí-las. Como por milagre, nenhuma bomba atingiu o alvo. Xeique Sam’um havia criado um escudo invisível para proteger seu lar das bombas que caíram ao redor, no mar, diziam os pescadores. Os anos se passaram e um dia o asfalto chegou até o pequeno vilarejo de Yiti. A estrada começou a trazer muito mais gente, de costumes e hábitos diferentes ao que o gênio julgava apropriado, e por isso ele resolveu partir para sempre. Segundo os pescadores, Xeique Sam’um hoje vive em um lugar secreto, sem ser importunado pelas multidões e seus problemas mundanos.

Muitos outros anos ainda se passam e nesse último fim de semana o Marido e eu nos aventuramos até Yiti. Eu, por estar louca para conhecer o lugar depois de conhecer a lenda ** e o Marido pela oportunidade de dirigir pelas ‘quebradas’ com um 4×4 – nunca entenderei os homens. Sorte do gênio que ele se mudou faz tempo, pois a estrada de Mascate até Yiti é uma beleza. Tão boa que o Marido sofreu até achar uma estradinha off road para se divertir. E eu descobrir que o carro tinha dois puta-que-parius e acabar com a brincadeira dele. Chegando na praia, é impossível não se impressionar com as rochas de Yiti. Elas realmente parecem não pertencer ao local. Fiquei imaginando as rochas cheias de peregrinos em tempos remotos, trazendo com eles suas aflições e esperanças. Hoje, apenas uns poucos turistas. Gente como eu, com os tais costumes inapropriados que fizeram o gênio partir…

Na universidade hoje de manhã perguntei aos meus alunos do curso de Geologia o porquê das rochas serem assim tão diferentes. Ninguém sabia. Perguntei sobre o gênio, se eles conheciam a história. Ninguém sabia nada. Levaram uma bronca pela falta de interesse no próprio folclore. Nem ligaram. Me perguntaram se eu acreditava em gênios e eu tive que fazer umas manobras linguísticas para não ofende-los, pois descobri que eles fazem parte da crença islâmica tanto quanto anjos e demônios (não sabia, aprendi hoje).

Depois da aula um aluno veio me procurar. Olhou para os lados, sério, e falou baixinho: ‘Professora, eu tenho um livro que ensina como controlar os gênios. É só seguir as instruções e eles são obrigados a te obedecer. Serão seus escravos. Quer que eu traga para você?’ Olhei prá ele e falei: ‘Habibi, eu já tenho você e os seus outros quarenta colegas, duas filhas e um marido atrás de mim o dia inteiro me perguntando o que fazer. A última coisa que eu preciso é de gênios me importunando também. Mas obrigada pela proposta. E não esqueça de fazer o homework para amanhã’.

Sábio foi o Xeique Sam’um que se isolou do mundo quando pôde.

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Arquivo pessoal – Yiti Beach, Março de 2017.

 

* Na mitologia árabe, os jinnis são seres sobrenaturais que podem ser bons ou maus, e tem o poder de interferir na vida dos humanos. Em português, a tradução mais comum é de gênio, como o do Aladim, mas eles não vivem necessariamente em lâmpadas mágicas.

** Do livro Omani Folk Tales, de Hatim Al Taie e Joan Pickersgill.

No Poo Raiz – Water Only – Só Água (outras considerações)

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Então vamos falar de cabelos de novo. Fiquei surpresa com tanto interesse no assunto depois que escrevi sobre a minha pouco ortodoxa rotina capilar. Não sou especialista em cabelos (aliás, em nada). Sou apenas alguém que se interessou por métodos alternativos e desistiu duas vezes até encontrar algo que funcionasse, e que ficou tão feliz com o resultado que resolveu compartilhar a experiência. Vou tentar condensar aqui as principais questões levantadas nos grupos onde o post foi compartilhado.

Nomenclatura

No Poo significa sem xampu. Low Poo refere-se a xampus sem sulfato. E Water Only significa, literalmente, só água. Para ser sincera, fiquei surpresa ao ver a quantidade de produtos que os seguidores do No Poo no Brasil usam. Produtos “liberados”, “co-wash”, “cabelo 3 a, 4 c”, “cronograma capilar”… fiquei boiando com todos esses termos novos para mim. Isso porque me familiarizei com o No Poo em sites mais naturebas, onde os adeptos substituíam o xampu por bicarbonato de sódio e vinagre (update: como a Bela Gil está fazendo), argilas e outras receitinhas orgânicas. Por isso cunhei a expressão No Poo Raiz, para diferenciar do método No Poo usando produtos industrializados. Tecnicamente falando, minhas primeiras semanas foram estritamente Water Only, só água, mas prefiro o termo genérico pois possivelmente usarei outros produtos naturais no futuro.

Como começar?

Eu fui direto para a água, mas quem estiver com receio pode começar com o Low Poo. Se você estiver usando produtos com silicone por muito tempo talvez seja melhor dar umas lavadas com xampu normal para tirar todos os resíduos antes de começar. Tire os frascos do banheiro para evitar  esquecer e encher a mão de xampu (aconteceu comigo). Prepare os elásticos, presilhas e faixas de cabelo pois eles serão seus melhores amigos durante a fase de transição. Prepare-se também para trocar a fronha do travesseiro com mais frequência.

Qual o melhor método?

Não tem. Tudo depende do seu tipo de cabelo, do tipo de água onde você mora, do seu estilo de vida e da sua motivação. O que funciona para um não necessariamente funcionará para outro. Eu comecei com o No Poo inspirada pela blogueira Ariana, do www.paris-to-go.com. Ela lava uma vez por semana, as vezes menos, com água previamente fervida. Eu só consegui sobreviver aos dois primeiros meses lavando diariamente, e só agora estou começando a espaçar as lavadas. E ferver água antes de cada lavada seria inviável no meu caso. Além disso, o melhor método agora pode não ser sempre o ideal, pois nossos cabelos mudam, assim como nossos hormônios e nossas rotinas. Não é uma ciência exata. Precisamos ir tentando até achar uma rotina que dê certo no nosso caso.

Mas como você faz?

No começo eu penteava muito com um pente fino (quase como aqueles de catar piolho), pois ficava mais fácil acumular sujeira e o óleo ali. Depois usava uma escova de dentes velha para limpar. Na prática significa tirar manualmente o que o xampu fazia antes. Na hora do banho, massageava bem o couro cabeludo, puxando o óleo para o comprimento dos fios, e depois passava o pente do lado mais grosso. Agora quase não uso mais o pente pois não vejo mais necessidade. Continuo escovando e massageando bem, pelo menos duas vezes ao dia.

Ah, mas isso não funciona com cabelos cacheados!

Pois é, parece que não mesmo. Cabelos crespos e cacheados pedem uma rotina diferente. O interessante é que o movimento No Poo começou justamente com o pessoal cacheado e crespo. O site da Giovanna (link aqui) é cheio de dicas e vídeos para cuidar das ondas de forma natural. Além disso, ela parece a Merida da Disney, e me faz ter vontade de ser uma boa moça para pedir cabelos cacheados na próxima vida. Outro site excelente é o cacheia.com, uma verdadeira enciclopédia online no assunto.

Da prá fazer se os cabelos estiverem tingidos?

Eu resolvi voltar para o No Poo quando decidi parar de pintar e assumir os brancos que vierem, então não saberei explicar em primeira mão o que fazer depois de uma tintura. Convido quem tem essa experiência a dividir isso com a gente lá nos comentários.

Isso não é lavar os cabelos, e sim só molhar.

Não, é lavar sim pois é essencial massagear as raízes, como se estivesse mesmo usando xampu. Se você simplesmente molhar imagino que vai ficar com um cheiro de cachorro molhado absurdo, além de possivelmente criar um ambiente propício a doenças capilares. Aderir ao No Poo dá muito trabalho no começo, especialmente no que se refere a massagear o couro cabeludo. Busquemos uma vida mais natural e sustentável, mas sem virarmos Marias Cascudas, né?

Ah, mas só água e massagens com os dedos não tiram o óleo!

Não tiram tudo, mas ajudam MUITO. Ao massagear o couro cabeludo, ajudamos a sujeira a se soltar dos fios e a água quente ajuda a levar embora. Nas primeiras semanas, tinha que parar a massagem para lavar as mãos com sabonete, pois ficava com uma luva de sebo. Sem xampu para quebrar as moléculas de gordura, precisamos dos dedos, da água, de pentes e escovas e do que for necessário para controlar a oleosidade até o couro cabeludo normalizar. E a propósito, a ideia é justamente NÃO tirar todo o óleo do cabelo – senão usaríamos xampu.

Mas será que é realmente uma prática mais ecológica e sustentável?

Esse é um ponto interessante. Há alguns anos eu tentei usar alternativas mais greens para a limpeza da casa e das roupas e comecei a usar savon de marseille e sabão de côco no lugar de detergentes. Desastre total. A qualidade da água hoje em dia é diferente de antigamente, quando o bom e velho sabão era suficiente. Tentar lavar roupas com sabão hoje em dia acaba por ser pior para o meio ambiente, pois precisamos de mais água, e mais quente, para conseguir o resultado esperado. Por outro lado, quando se trata do nosso próprio corpo existem outras coisas a serem consideradas, como a quantidade de produtos químicos presentes nos xampus, e mesmo nos produtos Low Poo. Para um No Poo Raiz eficiente, você provavelmente vai precisar deixar a água do banho mais quente do que o habitual, o que não é muito ecológico. Nas primeiras semanas, deve gastar mais ou menos o mesmo tempo massageando os cabelos debaixo do chuveiro como quando lavava com xampu. Por outro lado, conforme seu couro cabeludo se estabilize e produza menos óleo, o seu consumo de água deve diminuir na mesma proporção. Isso sem falar nas embalagens dos produtos que você vai deixar de usar, claro.

E o cheiro, como fica?

Essa parece ser a maior relutância em relação ao método. Também era a minha maior preocupação, sem dúvida. Mas sinceramente, se você seguir os cuidados recomendados, não vai feder. Talvez não goste de sentir o seu próprio cheiro, mas daí a feder é outra história. Comparo com o cheiro de uma cabeça não lavada há dois dias no começo – por sorte o cheiro não é proporcional aos dias sem xampu! Além disso, cheiro de cabeça não é nem de longe tão ofensivo como cheiro de sovaco sem desodorante ou de bunda mal lavada. Se suar muito, lave mais vezes, pelo seu bem e dos outros ao seu redor. Mas no geral, fique tranquilo. Mesmo.

Que tipo de mudança dá prá notar nos cabelos depois do período de transição?

Os meus estão muito macios e fáceis de pentear. Formam ondas suaves naturalmente, o que não acontecia antes. A textura é diferente de quando lavamos com xampu, eles não ficam leves e esvoaçantes – dá saudades disso, confesso. Por outro lado, é justamente essa textura que define as ondas. Noto também que demoram mais para secar naturalmente, e que as pontas continuam mais ressecadas do que o comprimento – provavelmente por conta da água dessalinada daqui de Mascate. Também está muito mais volumoso, e sem frizz.

Se um pterosauro passar voando e fizer um cocô enorme na minha cabeça, posso usar xampu e depois voltar ao método?

Pode, amigo. Aliás, até se um passarinho fizer. Aliás, até se você cansar e enjoar da rotina. Isso não é uma seita cuja saída implique numa morte lenta e dolorosa. É apenas um método alternativo de higiene, que pode ou não ser interessante para você. Mas já que você se deu ao trabalho de ler tudo isso até aqui, te convido a experimentar. Talvez você também se surpreenda com os resultados e saia por aí com os cabelos lindíssimos e brilhantes, como nunca antes. E depois venha me contar os resultados nos comentários!

Ui, credo, que nojeira! Isso é muita imundice! Vocês são muito porcos!

Então… Pois é.

Abraços e lindos cabelos para todos nós!

Ah, ela é hiperativa, né?

Ah, ela é hiperativa, né-

Mamã! Mamã! Abro os olhos e ainda está escuro. Estou numa cama que não é a minha e não me lembro de como vim parar aqui. Penso que isso é um bom sinal, quer dizer que fiz a minha rotina da noite em modo automático: ela acordou, chorou, eu vim até seu quarto, deitei com ela e acabei dormindo junto. Sim, foi uma noite excepcionalmente boa. Não posso reclamar. Não teve xixi na cama, não teve nariz entupido, não teve pesadelos, não teve seja lá o que for que a faz ficar acordada na madrugada com tanta frequência. Mas não são nem 5 da manhã ainda. Da mesquita da esquina vem o som do Adhan, a chamada para a primeira oração do dia. O galo do vizinho também já está cantando. Ah, o que eu não daria por uma horinha de sono a mais. Mas durante esses breves segundos de divagação ela já puxou a caixa de brinquedo para a parede e está se divertindo ligando e desligando a luz. E começa um novo dia…

Vou para o banheiro e levo ela junto. Sento no vaso e ela vai direto procurar o xampu. Está lá no cantinho da banheira, estrategicamente longe do alcance de mãozinhas curiosas. Ou melhor, estava, pois ela acaba de descobrir que consegue chegar lá se apoiando na pia. Impotente, vejo o frasco sendo apertado e o xampu escorrendo na banheira. Ainda bem que estou fazendo o No Poo Raiz, penso. Chego para o resgate, lavo as mãozinhas e a coloco no chão enquanto tento limpar um pouco a banheira. Quando viro a vejo tomando água diretamente da duchinha ao lado do vaso. Meu grito acorda o resto da família.

Tomamos café ao som da Galinha Pintadinha. A Primogênita chora ao ver que a Caçula tirou e espalhou pelo quarto todos os seus livros da mochila da escola. Quem mandou deixar a mochila ao alcance dela? digo eu, ciente de estar culpando a vítima. Semana passada a professora não achou graça quando ela disse que a irmãzinha tinha, literalmente, comido seu dever de casa. O Marido consegue mantê-la ocupada enquanto começo a me arrumar, mas acabo terminando de passar a maquiagem com a pequena nos braços. Como sempre, desisto do rímel. A babá chega e respiramos aliviados. Principalmente a bebê, pois sabe que chegou a hora de ir ao parquinho.

Chego no trabalho aliviada por não ter hematomas aparentes. Já cheguei com o lábio mais grosso que o da Angelina Jolie, quando uma cabecinha revoltada me acertou em cheio. Mordidas nos braços, beliscões… Ninguém pergunta, mas notam. Os colegas com filhos comentam o que fizeram no fim de semana. Piscina, restaurantes, piqueniques no parque. Nós passamos o fim de semana tentando impedi-la de se matar. Ah, ela é hiperativa, né? diz a recepcionista do hotel enquanto a bichinha se desvencilha dos meus braços e derruba a tabela de preços do balcão. Ponho ela no chão para pegar a carteira, procurando o Marido que está chegando com as malas. Ele larga tudo no caminho mas não consegue chegar antes dela na bagagem de outros hóspedes, que caem como dominós no lobby. Na piscininha de bebês, o Marido se empenha e se diverte junto. Sentada num banco ao lado, fecho os olhos para sentir o sol. Um momentinho de paz. Abro-os ao som de um grito desesperado do Marido e vejo a pequena correndo a todo vapor em direção à piscina grande. O salva-vidas, rápido, já correndo ao seu encontro. Adultos na piscina já nadando em direção a onde ela cairia. Senhoras ao redor prendendo a respiração, mãos na boca e no peito. O Marido aparece voando, agarrando-a pelo braço centímetros antes da queda. Todos respiram aliviados, nenhum ferimento dessa vez. Que ideia de jerico a nossa de achar que poderíamos nos divertir com a bebê na piscina.

Ainda é cedo para fazer um diagnóstico de hiperatividade, diz a pediatra na França ao vê-la tentando pular de uma cadeira para outra do consultório aos 10 meses de idade. Nem tinha tocado no assunto. Tinha ido lá só para a vacina. Essa agitação toda pode ser falta de ferro, diz outro pediatra em Omã, ao vê-la se jogar no chão depois de tentar escalar a mesa. E eu que achava que falta de ferro deixava a gente sem energia. Lá vamos nós então dar suplemento para a bichinha. Vai que dá certo e ela se acalma. Tô aceitando todos os conselhos. Não pode dar comida com corante alaranjado. Tirei tudo amarelo e vermelho também. Ela deve comer muito açúcar, né? Aproveitei e cortei o sal também. Vocês devem estar fazendo alguma coisa errada, não é normal criança nessa idade não dormir. Obrigada, já não passa um minuto sem que eu lembre que devo estar fazendo alguma coisa errada. Se ao menos eu soubesse o quê! Reze, peça ajuda a Deus. Já fiz isso também. Pessoas com mais cacife com o Todo Poderoso também. Mas ela continua com formigas na fralda. Penso naquelas histórias de pacto com o tinhoso. Cadê ele que não me aparece com uma proposta? Minha alma por noites de sono ininterruptas. Tô aqui facinha, facinha… O fulano tinha um filho assim como a sua, e acabou medicando o menino pois ele estava colocando a própria vida em risco. Ok, nem tanto. Vou tentar óleo de lavanda e camomila de novo. Vai que dessa vez dá certo…? Viu a história da criança que caiu da sacada do prédio e morreu¿ Não quero saber. Com a Caçula nasceu junto um pavor de perde-la. De não ser rápida o suficiente. De um dia chegar tarde demais.

Volto prá casa apreensiva. Como terá sido o dia dela? Será que está inteira? Mês passado ela arrancou a maçaneta do quartinho, ficando trancada com a babá por mais de uma hora, até a Primogênita chegar da escola e chamar o rapaz da manutenção do prédio. Encontrei a babá chorando, com os dedos ensanguentados por tentar abrir a porta. Outro dia tive que correr para o pronto-socorro depois de ela queimar o bracinho com água do bebedouro da casa da vizinha, debaixo dos olhos de dois adultos. Hoje o dia foi tranquilo, só os machucados habituais diários. Todo dia um hematoma novo, um corte novo, um arranhão novo. Esse foi batendo a cabeça ao correr atrás de um gato, aquele ao escorregar na grama, aquele outro tentando subir no poste de luz.  A babá só reclama das outras babás do prédio. Está ofendida pois elas não acreditam que a nossa bebê nem tem 2 anos ainda. Acham que ela está mentindo a idade para “se vangloriar”. Cada uma…

Tomo um banho rápido e a babá vai embora. O banho da bebê, que costumava ser uma atividade relaxante virou um jogo rápido desde que ela começou a insistir em mexer nas torneiras. Para ela, uma brincadeira, para mim, um novo temor de não ser rápida o suficiente e ela acabar escaldada. Vou preparar o jantar. Macarrão com molho pronto de novo. Nem dá vontade de começar. Ela puxa uma cadeira e vai brincar na pia. Coloco umas louças de plástico e ela se diverte. Viro para olhar a panela e nesses dois segundos, DOIS SEGUNDOS, ela alcança o detergente do outro lado do balcão e está com ele na boca. Corro prá lavar sua boquinha, me sentindo um fracasso. Peço ajuda para a primogênita para olhar a irmã enquanto escorro a água do macarrão. Mal termino e vejo a cozinha coberta de grãos de arroz. Um dos poucos alimentos ainda guardados no balcão de baixo, um saco de arroz fechado, não sobreviveu aos dedinhos da Caçula. Respiro fundo. Quantos milhares de grãos estão ali? Agora um pouco menos pois ela já pegou um punhado e está a caminho do tapete da sala. Uma hora e meia ainda até o Marido voltar do trabalho. I will survive. Aquela coisa amarelada na cortina é papinha ou cocô? Banho de novo. Bendita Peppa Pig e santa mamadeira que me dão a oportunidade de acariciar minha menina por uns instantes. Mas logo ela já esta em cima da mesa e o tablet estraçalhado no chão. Oh no, diz ela, contemplando os estilhaços.

Hora de dormir. O Marido vai ajeitar a cozinha e ajudar a Primogênita com o devoir. A Caçula e eu vamos para o quarto. Tranco a porta, apago a luz, canto baixinho a música que fiz para ela. Durante uma hora ela pula do colchão para o chão, do chão para o colchão. Se joga na piscina de bolinhas, pega a aranha de plástico e faz ela subir a parede cantando Itsy Bitsy Spider. Enfia o dedinho no meu umbigo, morde minha canela, tira tatu do nariz e põe no meu cabelo. Dá cambalhotas e ri alto. Bate a boca no meu joelho e chora. Vai para a janela e dá tchau para os carros na rua. Até que vira e me procura. Põe a cabecinha no meu braço e se aconchega junto a mim. Decidida, coloca minha mão no seu peito. Põe sua mãozinha dentro do meu sutiã. Me olha, já meio adormecida, e dispara 3 inesperados beijinhos no meu ombro. Um, dois, três. E dorme. Talvez ela não só precise de mim. Talvez ela me ame também. E eu então brinco de mamãe de comercial de tevê, com minha cria tranquila nos braços. Cheiro seus cabelos, acaricio seu rosto, beijo suas mãozinhas. Pressiono com meus lábios todo o amor do mundo na sua testinha suada. Perdoe a mamãe por estar sempre tão cansada. Perdoe a mamãe por não conseguir acompanhar o seu ritmo.

Vou ver a Primogênita em sua cama. O Marido me espera com um longo abraço. Desabo no sofá para ganhar massagem nos pés. Lembro que durante o dia pensei que poderíamos assistir a um filme, ou ter uma noite romântica, ou simplesmente conversar um pouco. Rio de tamanha ambição e logo adormeço também, enquanto posso, pois o ciclo de sono da pequena é tão rápido quanto suas perninhas. Quem sabe amanhã… quem sabe…

 

Quando o rosto feminino ofende e o ânus entretém

Duas caixas em uma prateleira da Virgin Megastore chamaram minha atenção. Parei, peguei cada uma. O mesmo produto, um cobertor com mangas e um bolso frontal. Em uma das caixas, a modelo sorridente, aconchegada num sofá, com um tablet na mão. Na outra, a mesmíssima foto, mas com o rosto da modelo pixelado – um frase em árabe nessa segunda caixa logo me faz entender o porquê da alteração. Já no meu quinto ano morando no oriente médio, não posso dizer que nunca tinha visto isso antes. Na Arábia Saudita, o normal é ver produtos com fotos femininas rabiscadas com tintas pretas, cobrindo antebraços, canelas, cabelos e tudo o mais que possa trazer maus pensamentos aos virtuosos varões sauditas. Por outro lado, ver aquele rosto deliberadamente escondido, como se fosse algo vergonhoso, em plena Mascate me deixou abalada. Depois da Ikea deletar mulheres dos seus catálogos, agora a Virgin Megastore também está cobrindo rostos femininos? Escrevi para a página deles no facebook: “Por favor, me ajudem a entender por que vocês estão vendendo esse produto. O rosto feminino é algo assim tão ofensivo?”. Responderam rápido, dizendo que a foto foi alterada pelo próprio fabricante e não por eles. Mais tarde escreveram que o produto foi tirado da loja depois da minha primeira mensagem e que eles respeitam a cultura e a legislação de cada região em que operam. Então, tá.

E aí chega o carnaval e na minha timeline aparece uma mulher pintada de verde, mostrando o fiofó para a câmera. Tanto bafafá sobre o assunto e tudo que eu consigo pensar é que estamos em 2017 e tantas mulheres ainda tem como objetivo de vida serem admiradas pelos seus atributos físicos. Enebriadas com a  oportunidade de rebolarem na tevê. Penso em todo o nosso sistema cultural que produz esses casos. Anseiam os holofotes nas suas bundas como as daqui anseiam pelo vento nos seus cabelos. Eu entendo e apoio as feministas que se opõem a sexualização e objetificação do corpo feminino. Também entendo e apoio as que buscam a liberdade de exporem seus corpos como quiserem, assim como é permitido aos homens. Feminismo diz respeito a liberdade, a escolhas, como diz Emma Watson, fuzilada nessa semana nas redes sociais por estar com parte dos seios de fora. Nunca assisti Harry Potter, mas ouvi-la como Embaixadora da ONU Mulheres há uns anos fez um cisquinho cair no meu olho. Hoje, quando minha Primogênita de 9 anos me perguntou o que eu achava dela, assistimos juntas ao seu discurso.

Da minha parte, tudo que eu gostaria é que o ser mulher deixasse de ser um evento. Que deixássemos de ser o Outro. Que deixássemos de ser seres linguisticamente e culturalmente marcados. Simplesmente, que ser mulher pudesse realmente ser uma coisa normal. A realidade porém, está mais perto da rajada de xingamentos que ouvi de um saudita em um shopping de Jedá quando meu lenço escorregou e expôs meus cabelos. Está mais perto da cara de horror e vergonha de uma amiga quando eu resolvi ir à piscina do clube em Londrina usando um maiô de perninha. Estamos sempre erradas. Somos erradas. Nesse dia internacional da mulher me sinto especialmente desmotivada. Entre goleiros assassinos em liberdade e políticos poloneses confortáveis em seus discursos de ódio, parece-me que o futuro nunca vai chegar. Sinto por minhas meninas que ainda nem imaginam o que está por vir. Pois a vida nos ensina que quando um homem é oprimido e subjulgado, é uma vergonha, uma tragédia, um escândalo. Mas quando a vítima é uma mulher, é simplesmente a cultura, é a tradição… Sejam elas vestes negras ou tinta verde.

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Cobertores da marca Kanguru, a venda em Janeiro de 2017 na Virgin Megastore em Mascate, Omã.

Cabelos – Fase pré No Poo Raiz

Esse texto eu escrevi em 2010 ou 2011, e publiquei no meu finado blog Família Apátrida. Republico hoje aqui, editado, para ilustrar o meu passado pré No Poo Raiz.

Aviso: Esse post é extremamente fútil.

Hoje vou reclamar. Se por um lado viver em Omã me trouxe muita alegria e até paz, por outro também me trouxe um baita problema com meus cabelos. Se já não bastasse a natureza implacável despigmentando cada vez mais fios, o clima e a água de Omã terminaram por destruir as minhas madeixas (nossa, de onde eu desenterrei essa palavra?).O fato é que qualquer bate papo entre mulheres nesse país vai invariavelmente trazer queixas sobre queda, ressecamento e pontas duplas, triplas, ou múltiplas.

Os culpados são a água dessalinizada, o ar condicionado e a temperatura entre 40 e 45 graus nos meses de verão. E eu que sempre fico do lado errado das estatísticas, sou mais uma vítima espigada dessa combinação explosiva. No mercado, a Primogênita já se arrasta resignada quando percebe que estamos indo para a seção de xampu pois sabe que vai ter que esperar eu ler o rótulo de cada produto, sempre procurando alguma fórmula mágica.

Já me disseram que meu cabelo parece fiapo de manga, algodão doce amarelado e até cabelo de profissional do sexo com poucos recursos financeiros (na verdade a expressão foi “puta pobre”, mas como eu sou uma dama, prefiro usar um eufemismo).E infelizmente é verdade. Quando me olho no espelho de manhã tenho a impressão de que animais selvagens passaram a noite se acasalando na minha cabeça.

No trabalho, um colega me apelidou de Miss Sunshine. Disse que é porque eu estou sempre sorrindo, mas eu sei, EU SEI que é por causa do meu rosto redondo coroado de cabelinhos crespos sempre que eu uso rabo de cavalo, como o negativo de um eclipse. Nos bons dias o meu cabelo parece o do Bon Jovi nos anos 80, e nos clássicos ‘bad hair days’ fica com a textura da cabeleira do cientista do De Volta Para o Futuro caso ele decidisse pintar o próprio cabelo com uma tinta vencida acobreada.

Quando o Ex veio buscar a Primogênita para passear, eu pedi que ele demorasse um pouco mais pois precisava fazer umas pesquisas para o mestrado. Quando ele voltou de repente e me pegou no flagra com 3 páginas da Internet abertas sobre máscaras, cremes e técnicas de hidratação, me olhou como se tivesse acabado de descobrir que eu era uma militante secreta da Al Qaeda. “A sua pesquisa é sobre tratamento de cabelos ressecados? Não acredito. Você???” E eu até tentei pensar em alguma possível ligação entre óleo de argan e aquisição de linguagem, mas não deu certo.Mas em minha defesa, a idade e a falta de tempo me ensinaram que é muito fácil fazer desdém das frivolidades alheias quando se tem cabelos saudáveis e sedosos.

Água dessalinizada no cabelo dos outros é refresco.

No Poo Raiz – Lavando os cabelos só com água

PineappleExpress

Há 8 semanas lavei meu cabelo pela última vez com xampu. De lá prá cá, só água. Nada de cremes, condicionadores, sabão, óleos ou poções mágicas. Só água, e da torneira mesmo. Antes que vocês, queridos leitores, sintam-se felizes por estarem bem longe de mim, deixem-me explicar melhor.

A chamada técnica No Poo consiste basicamente em evitar xampus por causa dos produtos químicos, como sulfatos, parabenos e fragrâncias tóxicas. A teoria é que ao parar de lavar os cabelos com xampu, o nosso próprio organismo se ajusta e começa a produzir menos óleo. Mas infelizmente, não antes de uma chata fase de transição.

Minha primeira tentativa na onda do No Poo foi há uns 7 anos, quando me mudei para o oriente médio. Continuava com minha rotina de sempre, lavando os cabelos diariamente, até que eles espigaram e começaram a cair de um jeito absurdo (aqui o que escrevi na época sobre o assunto). Comecei a fazer o combo bicarbonato de sódio + vinagre de maça para higienizar os cabelos. Até funcionou para a limpeza, mas o vinagre era muito fedido e todo o processo era difícil – ficar esfregando bicarbonato de sódio no couro cabeludo parece tortura. Meses depois, desisti com os cabelos ainda mais destruídos.

Há quase dois anos, quando morava em Moscou, tentei novamente. Tinha ouvido falar desse método de usar só água e quis tentar. Segui os conselhos que li na internet na época e lavava duas vezes por semana, só com água, e usava talco nos outros dias, para “sugar” o óleo. De novo, foi uma trabalheira danada, pois o pente e a escova ficavam muito nojentos, com uma mistura cinza de toda essa sujeira acumulada. Meus cabelos brancos começaram a se multiplicar naquela época (obrigada, filhinha Caçula), e eu aproveitei uma ida ao salão para pintar e desistir mais uma vez do No Poo.

Até que nos primeiros dias do ano eu comecei a pensar que meu cabelo continuava caindo, que estava ressecado e mal pintado, enquanto minha bancada continuava cada vez mais cheia de produtos. Obviamente, não estava dando certo. Claro que além da água cheia de calcário da Europa e da água dessalinizada daqui do oriente médio, e da overdose de químicas durante muitos anos, também tenho a genética a meu desfavor. Na minha família, até as mulheres ficam carecas. Já estava pensando há um tempo em parar de pintar e assumir os grisalhos, e aproveitei para fazer uma resolução de ano novo e começar todo o processo de novo. A diferença dessa vez é que, provavelmente por não usar nada além de água, o processo de transição foi muito mais tranquilo. O que eu fiz? Vamos lá:

A Rotina

Depois de lavar com xampu pela última vez (xampu normal, o que tinha aqui em casa), continuei a lavar diariamente, mas só com água. Antes de entrar no banho, escovo bastante, por longos minutos, e massageio o couro cabeludo. No banho, deixo a água mais quente do que costumava, massageio, puxando o óleo para o comprimento do cabelo, e penteio com um pente fino. Tiro o excesso de água com a toalha e deixo secar naturalmente.

Mas não fede?

Nos primeiros dias, sentia um cheirinho de cachorro molhado no banho, sim. Pessoalmente, acho que essa é a parte mais difícil, a falta daquele cheirinho de xampu gostoso na hora do banho. Mas, se você massagear e escovar bastante, e enxaguar com frequência nas primeiras semanas, dificilmente vai feder. Na verdade, mesmo durante a fase de transição, acho que o cheiro é o mesmo de quando não lavamos a cabeça por dois dias. Fiz tanto o Marido como a Primogênita cheirarem meus cabelos e ambos falaram a mesma coisa: Não tem cheiro ruim, mas também não tem o cheiro bom de xampu. Não dá prá ter tudo, infelizmente.

A Transição

Durante esse período, que pode durar de 4 a 8 semanas, a situação é terrível. A raiz fica oleosa pois está acostumada a produzir bastante, e só a escovação e água não conseguem deixar do jeito que ficava. Na hora do banho, as mãos ficam com uma película de óleo do cabelo, o que não é muito agradável. Pentes e escovas precisam ser higienizados com frequência, pois fazem grande parte do trabalho que o xampu fazia antes. A boa notícia é que há uma luz no fim do túnel, e essa fase passa.

E então, vale a pena?

Acredito que sim, mas não é para qualquer um. Na prática, dá muito menos trabalho usar xampu diariamente e gastar uns segundinhos escovando do que se comprometer com o No Poo. O custo social de não cuidar bem e virar uma Maria Cascuda pode ser alto. No meu caso, valeu muito toda a trabalheira das seis semanas de transição, pois desde então meu cabelo mudou completamente. Está bonito, macio e brilhante, como nunca antes. Nunca mesmo. Antes estava poroso e cheio de frizz. Agora forma ondas suaves naturalmente. Além disso, ver todos aqueles potes de xampu e cremes substituídos por um pente e uma escova me dá uma satisfação enorme. Minha nova rotina é tão mais simples e sustentável, com menos consumismo e menos plástico e tóxicos no meu karma ambiental.  Ah, vale a pena, sim! E como!

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Meu cabelo hoje, há 8 semanas só usando água para lavar

A incivilidade da Parisiense que deixou um livro na rua

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Imagem Pixabay

 

Parece que aquele provérbio que diz que nenhuma boa ação fica impune encontrou um paralelo perfeito essa semana em Paris. Uma senhora deixou um livro numa calçada do 18ème arrondissement, na esperança que alguém o achasse e desse continuidade ao propósito do nobre objeto. Deu o azar de ser vista por fiscais da prefeitura, da chamada Brigada contra a Incivilidade, que a recompensaram com uma multa de 68 Euros – a mesma por jogar bituca de cigarro ou deixar cocô de cachorro no chão.

Penso em quantas vezes também cometi essa “incivilidade”, digna de uma multa desse tamanho. Lembro de um dia olhar para a minha sempre crescente estante de livros, e decidir que era hora de desapegar. Comecei a furtivamente abandonar livros no ônibus, em bancos de praça, no shopping, na sala dos professores, no restaurante universitário. Andava sempre com um livro já lido na bolsa, procurando um lugarzinho especial para deixá-lo. Me sentia uma Amélie Poulain literária. As vezes ficava de butuca olhando de longe para ver se alguém se interessava e adotava o meu ex protegido. Muitas vezes estranhos correram atrás de mim para me devolver o livro “esquecido”. Por vezes deixava bilhetinhos, convidando o prospectivo leitor a passar o livro adiante depois de lido. Reencontrei alguns volumes em sebos de Londrina. Vi, em pânico, uma adorada história ter o seu funeral junto de restos de BigMac numa praça de alimentação. Também vi um gari parar seu trabalho, passar a mão sobre a capa e guardar o livro com cuidado no bolso do macacão. Isso porém foi há tanto tempo… Nossa vida nômade e a maravilhosa tecnologia do Kindle fizeram o meu antigo hobby desaparecer. Hobby esse que no meu caso nada tinha de altruísta, pois a maior beneficiária era eu mesma – nerdicamente (e quase pervertidamente) fantasiando sobre o futuro de todas aquelas páginas abandonadas à própria sorte.

E hoje a história da parisiense me trouxe de volta todas essas lembranças. Por sorte, o caso dela teve um final relativamente feliz. Depois de contar o ocorrido na internet, e da esperada indignação local, a história chegou até a prefeitura de Paris que tuitou: “Foi um erro. Paris ama os livros e ainda mais aqueles que os compartilham. A multa será cancelada”. Menos mal para a atrevida infratora francesa que ousou sujar a calçada da Cidade Luz com um pequeno livro… mas depois disso, quantos obras deixarão de ser, incivilizadamente, semeadas pelas ruas parisienses?