Pedaços do cotidiano Londrinense

Londrina, 2017

Observações de uma Londrinense redescobrindo sua terra natal

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Super Muffato Gourmet do Shopping Aurora. Na entrada do mercado uma pequena comoção. Seguranças falando no walkie talkie, funcionários cochichando, e grupinhos de curiosos já se formando. Todos parecem olhar para um rapaz que se demorava em frente à máquina de ler preços. Esse parecia esperar um amigo mais ao fundo da loja.
‘Devem ter pego aquele uísque de 15 mil’, disse um curioso. Outros seguranças chegam e fazem uma barreira do lado de fora, esperando os meninos saírem. Eu que sou curiosa, mas nem tanto, continuei meu caminho e fui embora. Depois fiquei sabendo que os rapazes suspeitos foram recepcionados pelos seguranças assim que saíram da loja, e levados novamente lá para dentro. Em seus bolsos e jaquetas, lâminas de barbear e outras quinquilharias. Coisinhas muito mais baratas do que o tal do uísque, que aliás  continua lá, a espera de algum comprador endinheirado.

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Idoso pisa em uma pedra solta no bosque do centro de Londrina e cai. Braço ensanguentado, pele arranhada, pertences espalhados pelo chão.
‘Mas ninguém parou para te ajudar, para perguntar se estava bem?’, pergunto.
‘Ninguém. Só desviavam para não passar por cima de mim’, disse ele, abaixando os olhos e sorrindo sem graça. Londrina me pareceu muito menos linda hoje.

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Estava passando pela avenida Duque de Caxias e resolvi parar em uma quitanda. Daquelas que a gente põe tudo numa bacia e bate papo furado com o dono. Daquelas que lembram infâncias longínquas. Comprei morangos, poncã, duas variedades de maça, bananas (tava 1.99 o quilo), ameixas, batatinhas minúsculas e um maço de cebolinhas. A conta deu 35 reais e 85 centavos. Sai de lá carregando 4 sacolas e saltitando de felicidade.

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O anúncio de até 75% de desconto me fez dar uma passadinha na Tok Stok. Não comprei nada pois nem assim as coisas lindas de lá cabem no meu orçamento, mas valeu por essa foto especialíssima. Pode até ser que o c seja de ‘see’ e o u de ‘you’, mas que ficou estranho, ficou…

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Chego ao balcão para fazer o pedido e pego o fim da conversa entre duas funcionárias, uma bem novinha e a outra já perto de se aposentar:
— (…) mas precisava deixar tudo daquele jeito?
— O negócio é que cliente é cliente e no fim das contas são eles que pagam o seu salário no fim do mes. Então pare de reclamar.
As duas se viram ao mesmo, retribuem o meu sorriso e anotam meu pedido, que logo chega impecável. Antes de sair, me esmero na limpeza da minha mesa, mesmo com aqueles guardanapos que só espalham a gordura em vez de limpar.

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Sempre me sinto a própria VIP ao andar no tarmac até o avião no aeroporto de Londrina. Melhor fazer de conta que estamos prestes a embarcar num jatinho do que pensar na infra-estrutura risível do local. Pronta para decolar naquele voo das 5.35 da madrugada, abro a revista de bordo e vejo esse anúncio da Gol (abaixo).  A risadinha abafada do Marido prova que eu não fui a única a ver o duplo sentido ali. O casal ao lado também ri com a gente. Parabéns pelos 10 cm a mais, Gol!

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Sempre, sempre que vou ao Catuaí ou ao Shopping Aurora, as pessoas me chamam de senhora, e ao meu marido de moço. Por outro lado, no calçadão ou no centro, sempre me chamam de moça e a ele de senhor. Por que será?

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“Coloque seu lixo no seu… se não couber deixe na tua casa e não aqui. Obrigado”

Ah, mais um exemplo da amabilidade, gentileza e consideração para com o próximo do povo londrinense. Imagino o quanto de lixo o dono da caçamba já deve ter tido que limpar até chegar ao ponto de escrever esse recadinho simpático. Tirei a foto na rua Jorge Velho, no centro de Londrina.

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Marido e eu visitando uma escola para matricular a Primogênita. A funcionária orgulhosa nos mostra tudo, simpaticíssima, fala do método, e lá pelas tantas solta:

-O diferencial da nossa escola, é que… (hesita um pouquinho sem deixar de sorrir) é que é uma escola para gente rica.

Marido me olha sem acreditar no que ouviu. Eu delicadamente interrompo a moça:

-Nós não somos ricos.

-Ah, sim, o que eu quero dizer é que a mensalidade é cara, nem todo mundo consegue pagar…

Até hoje tento, sem sucesso, entender a intenção da moça ao fazer o tal comentário. De certeza, só que os tais ”choques culturais” parecem muito mais difíceis quando sentidos na nossa própria casa.

Gleba Palhano Poética

Hoje aproveitei a boa vontade do Marido em ficar com as meninas e  fui caminhando para um compromisso pela manhã, pouco antes de mais um dilúvio londrinense. Observava o vai e vem dos moradores e pensava em como a minha terra natal agora me parece tão estranha, tão ”exótica”. As pessoas eram assim tão simpáticas, sempre dando bom dia a estranhos quando eu morava no centro de Londrina? Ou será uma particularidade da Gleba Palhano? Ou eu é que nunca tinha prestado atenção antes de partir? Continuei caminhando e logo vi uma plaquinha num gramado de prédio que me fez rir. Quando vi a segunda e a terceira resolvi voltar para tirar foto da primeira também para poder compartilhar aqui essas pérolas da poesia com temática fecal (todas na rua Eurico Humming):

‘Não deixe no chão o que é do seu cão’

‘Vizinho legal recolhe as fezes do seu animal’

‘Seja um bom cidadão, recolha o cocô do seu cão’ (esse com o nome do prédio embaixo, o que por alguns instantes míopes me fizeram pensar que era o nome do orgulhoso autor da rima).

Enquanto tirava o celular da bolsa uma moça aparece puxada por seu cachorrinho, de uma daquelas raças caríssimas e aparentemente obrigatórias aqui nesse bairro. O cachorrinho começa a circular se preparando para evacuar, ali a um metro de mim e a dois metros da plaquinha. A moça sorri meio sem graça e rapidamente tira uma sacola plástica do bolso, obviamente para me mostrar que ela vai limpar o cocô depois. Quando ela percebe que eu estou tirando foto da plaquinha anti-fezes caninas, começa a agitar a sacola até fazer barulho, exalando desconforto com a situação.

O cachorrinho, indiferente às plaquinhas espirituosas e à aflição da sua dona, se contorce, visivelmente constipado. Eu me enrolo um pouco, me divertindo com a situação bizarra e me dando mentalmente um tapinha nas costas por ter batido o pé e insistido que um gato seria o pet ideal para nossa família – dá muito menos trabalho. Mas logo fico com vergonha do meu sadismo e me apresso a sair, fazendo algum comentário sobre o toró prestes a desabar e quase escuto o suspiro de alívio da moça. Mando boas energias para o cachorrinho ”ressequido” (como dizia minha vó) e sigo meu caminho. Olho para o céu e desisto de me aventurar por outras ruas a procura de mais poesia glebense. Ou seria glebapalhense? Ou ainda glebapalhanoense?

Alguns minutos depois a chuva cai com força e os habituais personagens do bairro desaparecem. As moças saradas com roupas de ginástica na rua, os jovens pais com seus bebês em carrinhos modernos, os tiozões voltando encharcados de suor do Igapó, os adolescentes resmungando ao carregar sacolas cheias de compras do Super Muffato do Aurora. E como num passe de mágica, os cachorrinhos caros passam para os colos dos donos e somem rapidamente adentro dos prédios. A chuva logo começa a enlamear os jardinzinhos impecáveis e eu, já pingando, penso que isso sim é poesia glebialística.

É verdade que os franceses não tomam banho?

É verdade que os Franceses não tomam banho- (1)

Ah, o velho clichê. Acho que nada atiça tanto a curiosidade de brasileiros em relação aos franceses do que os seus hábitos de higiene – ou a falta deles. Ou da presumida falta deles. E a resposta é complexa. Volta e meia aparece alguma pesquisa dizendo que sei lá quantos porcentos dos franceses não tomam banho diariamente, e que os brasileiros são esses seres asseadíssimos, perfumados deuses do Lux Luxo. Menos, pessoal, menos.

En fait, essas generalizações estão tão enraizadas no nosso imaginário coletivo que uma das primeiras coisas que eu perguntei quando conheci o Marido era se ele tomava banho todos os dias. “Sim, todos os dias. E até escovo os dentes”, garantiu ele. Só então, satisfeita com a resposta, eu ativei o meu modo super charme irresistível. Que aliás, provou-se fatal para o pobre rapaz gaulês. O interessante é que ele demorou até entender as piadinhas que eu fazia sobre a falta de banho – ele não tinha a mínima ideia de que os franceses tinham essa fama.

Deixando de lado os fatores históricos (sim, parece que nossos ancestrais indígenas adoravam um banho de rio, e sim, o pessoal da Europa na Idade Média morria de medo de água) e do clima, na prática existem diferenças culturais em relação às práticas de higiene. Nas minhas observações pessoais (que se limitam à família e amigos do Marido) noto que os banhos são bem mais rápidos, e que nem os homens lavam os cabelos diariamente. O que não significa que cheirem mal. Quem mora em Paris, as vezes nem tem chuveiro no apartamento. Enchem a pia com água, colocam uma luva específica prá isso e fazem um banho de gato como podem. Mas isso, confesso, ouvi de terceiros. O “normal” é sim, banho diário (mesmo que breve).

Mas então por que essa fama de fedidos? Sinceramente, não sei. Já senti cheiro de arroto de vodca semi-digerida no metrô de Moscou, de peles que exalavam a repolho fermentado na Coréia, gente com bafo de camelo em estado terminal em Dubai, peido de quem parecia ter comido sopa de hiena na África do Sul, e muito fedor de bunda mal lavada nos ônibus de Londrina. Na França, não me lembro de ter sido atingida por odores extremamente ofensivos em nenhum lugar público, mas como já vi muita gente reclamar, acho que tive sorte até agora.

Mas finalmente, se você está lendo esse post por mera curiosidade, fique tranquilo. É pouco provável que os banhos dos franceses tenham algum impacto real na sua vida. Agora, se você chegou até aqui porque tem algum francês ou francesa como prospectivo objeto de desejo e está preocupado com o momento em que o l’amour estiver no ar e as chiquérrimas roupas francesas estiverem no chão, também fique tranquilo. Isso porque, o dia em que você abrir a geladeira e for nocauteada por um queijo roquefort esquecido lá dentro, ou então sentir o aroma de um refluxo gasoso depois que o seu francês ou francesa comer um tal de saucisson*, aí sim você verá que um autêntico sovaco francês era o menor dos seus problemas…

20170206_164045* Saucisson é um salame francês, feito de carne de porco defumada dentro de um pedaço de tripa, deixado pendurado por meses até criar uma camada de fungos e bolores por fora. Cheira a coisa morta. Pivô de um possível divórcio entre um francês de Lyon e uma brasileira de Londrina.

O começo

Dezembro de 2016. Era uma manhã fresca e ensolarada em uma capital do oriente médio. O Marido abotoava a camisa e eu terminava de colocar a maquiagem. Estávamos cansados e desmotivados e ainda nem eram 7 da manhã. ‘Talvez devêssemos voltar para a França’ disse ele. Voltar, no caso, seria somente para ele, que é francês. Para a Primogênita, para a Caçula e para mim, seria simplesmente ir. Já havíamos discutido o futuro tantas vezes, sempre diminuindo o nosso exílio voluntário de pouquinho em pouquinho – ‘vamos ficar por aqui até a Primogênita terminar o ensino médio’, ‘pensando bem, poderíamos ir embora antes de ela começar o ensino médio’, ‘quem sabe só mais uns 3 anos até juntarmos um pé-de-meia razoável?’. A cada plano alterado sempre lembramos aquele ditado: “se você quer fazer Deus rir, conte a ele seus planos”, e seguimos em frente.

Dirigindo para o trabalho percebi que nunca havia considerado morar na França como uma alternativa real. Lógico, nos nossos planos mirabolantes a aposentadoria seria sucessíveis períodos de seis meses em Marseille e em Londrina, ou em Lyon e alguma praia do nordeste, para um perfeito equilíbrio entre cidade e mar. Seis meses de primavera e verão na França, e depois mais seis meses de primavera e verão no Brasil. Parfait! Mas isso era prá aposentadoria e ela está longe (não tão longe quanto estaria no Brasil depois dessas reformas, mas ainda assim, bem longe).

Durante o dia, em meio ao tsunami de alunos vindo à minha mesa reclamar de suas notas, refleti que uma mudança para a França seria o fim da minha carreira como professora universitária. Dolorido, mas não necessariamente ruim. Seriam anos até eu aprender a nova língua a um nível decente. Por outro lado, morar na França significaria uma estabilidade para nossa pequena família. Um enfim ‘estar em casa’, mesmo que nunca tenha sido minha casa. Mesmo que talvez nunca venha a ser de fato. Mas um lugar para criar raízes depois de anos como profissionais mercenários, pulando de país em país. Talvez tenha chegado a nossa hora de ir e de voltar. Peut être.

À noite, quando o Marido chegou, eu disse: ‘ok, então vamos!’. Ele me olhou confuso, nem lembrava mais do que tinha dito de manhã. ‘Vamos morar na França. Acho que estamos prontos’. Ele viu nos meus olhos que eu estava falando sério, e que eu sabia que a mudança não seria fácil. E eu vi nos olhos dele que ele ansiava por essa mudança há muito, muito tempo. E assim, despretensiosamente, começava a nossa Operação França.

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Foto tirada pelo Marido em Novembro de 2011, em Marseille.