O gênio da praia de Yiti

Não muito longe de Mascate, banhado pelo Mar da Arábia, existe um pequeno vilarejo chamado Yiti. Durante séculos sua população viveu relativamente isolada, pois o acesso a outras partes do país era difícil. Conta a lenda que um dia os pescadores acordaram e se depararam com uma grande formação rochosa na praia, vinda do nada. Essas rochas, de cor e textura diferentes das outras ao redor e brotadas na areia de um dia para o outro, logo fizeram os habitantes perceber que se tratava de uma obra divina. A notícia logo se espalhou e o vilarejo começou a receber pessoas de toda a região, que faziam o difícil trajeto a fim de visitar as rochas, que eram o lar de um gênio* bom e sábio chamado Xeique Sam’un.

Histórias de milagres se multiplicavam e pequenas multidões vinham fazer suas súplicas ao bom gênio. Acreditava-se que ele tinha o poder de ajudar mulheres estéreis a conceber e elas vinham esperançosas rogar por sua ajuda. Visitantes traziam roupas, doces e cabras como oferendas para Xeique Sam’um. Alguns escalavam as rochas e queimavam incenso lá em cima para afastar os maus espíritos antes de iniciarem suas preces e pedidos.

Um dia, um avião chegou e começou a bombardear as rochas, na intenção de destruí-las. Como por milagre, nenhuma bomba atingiu o alvo. Xeique Sam’um havia criado um escudo invisível para proteger seu lar das bombas que caíram ao redor, no mar, diziam os pescadores. Os anos se passaram e um dia o asfalto chegou até o pequeno vilarejo de Yiti. A estrada começou a trazer muito mais gente, de costumes e hábitos diferentes ao que o gênio julgava apropriado, e por isso ele resolveu partir para sempre. Segundo os pescadores, Xeique Sam’um hoje vive em um lugar secreto, sem ser importunado pelas multidões e seus problemas mundanos.

Muitos outros anos ainda se passam e nesse último fim de semana o Marido e eu nos aventuramos até Yiti. Eu, por estar louca para conhecer o lugar depois de conhecer a lenda ** e o Marido pela oportunidade de dirigir pelas ‘quebradas’ com um 4×4 – nunca entenderei os homens. Sorte do gênio que ele se mudou faz tempo, pois a estrada de Mascate até Yiti é uma beleza. Tão boa que o Marido sofreu até achar uma estradinha off road para se divertir. E eu descobrir que o carro tinha dois puta-que-parius e acabar com a brincadeira dele. Chegando na praia, é impossível não se impressionar com as rochas de Yiti. Elas realmente parecem não pertencer ao local. Fiquei imaginando as rochas cheias de peregrinos em tempos remotos, trazendo com eles suas aflições e esperanças. Hoje, apenas uns poucos turistas. Gente como eu, com os tais costumes inapropriados que fizeram o gênio partir…

Na universidade hoje de manhã perguntei aos meus alunos do curso de Geologia o porquê das rochas serem assim tão diferentes. Ninguém sabia. Perguntei sobre o gênio, se eles conheciam a história. Ninguém sabia nada. Levaram uma bronca pela falta de interesse no próprio folclore. Nem ligaram. Me perguntaram se eu acreditava em gênios e eu tive que fazer umas manobras linguísticas para não ofende-los, pois descobri que eles fazem parte da crença islâmica tanto quanto anjos e demônios (não sabia, aprendi hoje).

Depois da aula um aluno veio me procurar. Olhou para os lados, sério, e falou baixinho: ‘Professora, eu tenho um livro que ensina como controlar os gênios. É só seguir as instruções e eles são obrigados a te obedecer. Serão seus escravos. Quer que eu traga para você?’ Olhei prá ele e falei: ‘Habibi, eu já tenho você e os seus outros quarenta colegas, duas filhas e um marido atrás de mim o dia inteiro me perguntando o que fazer. A última coisa que eu preciso é de gênios me importunando também. Mas obrigada pela proposta. E não esqueça de fazer o homework para amanhã’.

Sábio foi o Xeique Sam’um que se isolou do mundo quando pôde.

2017-03-18 10.07.06
Arquivo pessoal – Yiti Beach, Março de 2017.

 

* Na mitologia árabe, os jinnis são seres sobrenaturais que podem ser bons ou maus, e tem o poder de interferir na vida dos humanos. Em português, a tradução mais comum é de gênio, como o do Aladim, mas eles não vivem necessariamente em lâmpadas mágicas.

** Do livro Omani Folk Tales, de Hatim Al Taie e Joan Pickersgill.

Quando o rosto feminino ofende e o ânus entretém

Duas caixas em uma prateleira da Virgin Megastore chamaram minha atenção. Parei, peguei cada uma. O mesmo produto, um cobertor com mangas e um bolso frontal. Em uma das caixas, a modelo sorridente, aconchegada num sofá, com um tablet na mão. Na outra, a mesmíssima foto, mas com o rosto da modelo pixelado – um frase em árabe nessa segunda caixa logo me faz entender o porquê da alteração. Já no meu quinto ano morando no oriente médio, não posso dizer que nunca tinha visto isso antes. Na Arábia Saudita, o normal é ver produtos com fotos femininas rabiscadas com tintas pretas, cobrindo antebraços, canelas, cabelos e tudo o mais que possa trazer maus pensamentos aos virtuosos varões sauditas. Por outro lado, ver aquele rosto deliberadamente escondido, como se fosse algo vergonhoso, em plena Mascate me deixou abalada. Depois da Ikea deletar mulheres dos seus catálogos, agora a Virgin Megastore também está cobrindo rostos femininos? Escrevi para a página deles no facebook: “Por favor, me ajudem a entender por que vocês estão vendendo esse produto. O rosto feminino é algo assim tão ofensivo?”. Responderam rápido, dizendo que a foto foi alterada pelo próprio fabricante e não por eles. Mais tarde escreveram que o produto foi tirado da loja depois da minha primeira mensagem e que eles respeitam a cultura e a legislação de cada região em que operam. Então, tá.

E aí chega o carnaval e na minha timeline aparece uma mulher pintada de verde, mostrando o fiofó para a câmera. Tanto bafafá sobre o assunto e tudo que eu consigo pensar é que estamos em 2017 e tantas mulheres ainda tem como objetivo de vida serem admiradas pelos seus atributos físicos. Enebriadas com a  oportunidade de rebolarem na tevê. Penso em todo o nosso sistema cultural que produz esses casos. Anseiam os holofotes nas suas bundas como as daqui anseiam pelo vento nos seus cabelos. Eu entendo e apoio as feministas que se opõem a sexualização e objetificação do corpo feminino. Também entendo e apoio as que buscam a liberdade de exporem seus corpos como quiserem, assim como é permitido aos homens. Feminismo diz respeito a liberdade, a escolhas, como diz Emma Watson, fuzilada nessa semana nas redes sociais por estar com parte dos seios de fora. Nunca assisti Harry Potter, mas ouvi-la como Embaixadora da ONU Mulheres há uns anos fez um cisquinho cair no meu olho. Hoje, quando minha Primogênita de 9 anos me perguntou o que eu achava dela, assistimos juntas ao seu discurso.

Da minha parte, tudo que eu gostaria é que o ser mulher deixasse de ser um evento. Que deixássemos de ser o Outro. Que deixássemos de ser seres linguisticamente e culturalmente marcados. Simplesmente, que ser mulher pudesse realmente ser uma coisa normal. A realidade porém, está mais perto da rajada de xingamentos que ouvi de um saudita em um shopping de Jedá quando meu lenço escorregou e expôs meus cabelos. Está mais perto da cara de horror e vergonha de uma amiga quando eu resolvi ir à piscina do clube em Londrina usando um maiô de perninha. Estamos sempre erradas. Somos erradas. Nesse dia internacional da mulher me sinto especialmente desmotivada. Entre goleiros assassinos em liberdade e políticos poloneses confortáveis em seus discursos de ódio, parece-me que o futuro nunca vai chegar. Sinto por minhas meninas que ainda nem imaginam o que está por vir. Pois a vida nos ensina que quando um homem é oprimido e subjulgado, é uma vergonha, uma tragédia, um escândalo. Mas quando a vítima é uma mulher, é simplesmente a cultura, é a tradição… Sejam elas vestes negras ou tinta verde.

2016-12-29 13.14.28
Cobertores da marca Kanguru, a venda em Janeiro de 2017 na Virgin Megastore em Mascate, Omã.

Cabelos – Fase pré No Poo Raiz

Esse texto eu escrevi em 2010 ou 2011, e publiquei no meu finado blog Família Apátrida. Republico hoje aqui, editado, para ilustrar o meu passado pré No Poo Raiz.

Aviso: Esse post é extremamente fútil.

Hoje vou reclamar. Se por um lado viver em Omã me trouxe muita alegria e até paz, por outro também me trouxe um baita problema com meus cabelos. Se já não bastasse a natureza implacável despigmentando cada vez mais fios, o clima e a água de Omã terminaram por destruir as minhas madeixas (nossa, de onde eu desenterrei essa palavra?).O fato é que qualquer bate papo entre mulheres nesse país vai invariavelmente trazer queixas sobre queda, ressecamento e pontas duplas, triplas, ou múltiplas.

Os culpados são a água dessalinizada, o ar condicionado e a temperatura entre 40 e 45 graus nos meses de verão. E eu que sempre fico do lado errado das estatísticas, sou mais uma vítima espigada dessa combinação explosiva. No mercado, a Primogênita já se arrasta resignada quando percebe que estamos indo para a seção de xampu pois sabe que vai ter que esperar eu ler o rótulo de cada produto, sempre procurando alguma fórmula mágica.

Já me disseram que meu cabelo parece fiapo de manga, algodão doce amarelado e até cabelo de profissional do sexo com poucos recursos financeiros (na verdade a expressão foi “puta pobre”, mas como eu sou uma dama, prefiro usar um eufemismo).E infelizmente é verdade. Quando me olho no espelho de manhã tenho a impressão de que animais selvagens passaram a noite se acasalando na minha cabeça.

No trabalho, um colega me apelidou de Miss Sunshine. Disse que é porque eu estou sempre sorrindo, mas eu sei, EU SEI que é por causa do meu rosto redondo coroado de cabelinhos crespos sempre que eu uso rabo de cavalo, como o negativo de um eclipse. Nos bons dias o meu cabelo parece o do Bon Jovi nos anos 80, e nos clássicos ‘bad hair days’ fica com a textura da cabeleira do cientista do De Volta Para o Futuro caso ele decidisse pintar o próprio cabelo com uma tinta vencida acobreada.

Quando o Ex veio buscar a Primogênita para passear, eu pedi que ele demorasse um pouco mais pois precisava fazer umas pesquisas para o mestrado. Quando ele voltou de repente e me pegou no flagra com 3 páginas da Internet abertas sobre máscaras, cremes e técnicas de hidratação, me olhou como se tivesse acabado de descobrir que eu era uma militante secreta da Al Qaeda. “A sua pesquisa é sobre tratamento de cabelos ressecados? Não acredito. Você???” E eu até tentei pensar em alguma possível ligação entre óleo de argan e aquisição de linguagem, mas não deu certo.Mas em minha defesa, a idade e a falta de tempo me ensinaram que é muito fácil fazer desdém das frivolidades alheias quando se tem cabelos saudáveis e sedosos.

Água dessalinizada no cabelo dos outros é refresco.

No Poo Raiz – Lavando os cabelos só com água

PineappleExpress

Há 8 semanas lavei meu cabelo pela última vez com xampu. De lá prá cá, só água. Nada de cremes, condicionadores, sabão, óleos ou poções mágicas. Só água, e da torneira mesmo. Antes que vocês, queridos leitores, sintam-se felizes por estarem bem longe de mim, deixem-me explicar melhor.

A chamada técnica No Poo consiste basicamente em evitar xampus por causa dos produtos químicos, como sulfatos, parabenos e fragrâncias tóxicas. A teoria é que ao parar de lavar os cabelos com xampu, o nosso próprio organismo se ajusta e começa a produzir menos óleo. Mas infelizmente, não antes de uma chata fase de transição.

Minha primeira tentativa na onda do No Poo foi há uns 7 anos, quando me mudei para o oriente médio. Continuava com minha rotina de sempre, lavando os cabelos diariamente, até que eles espigaram e começaram a cair de um jeito absurdo (aqui o que escrevi na época sobre o assunto). Comecei a fazer o combo bicarbonato de sódio + vinagre de maça para higienizar os cabelos. Até funcionou para a limpeza, mas o vinagre era muito fedido e todo o processo era difícil – ficar esfregando bicarbonato de sódio no couro cabeludo parece tortura. Meses depois, desisti com os cabelos ainda mais destruídos.

Há quase dois anos, quando morava em Moscou, tentei novamente. Tinha ouvido falar desse método de usar só água e quis tentar. Segui os conselhos que li na internet na época e lavava duas vezes por semana, só com água, e usava talco nos outros dias, para “sugar” o óleo. De novo, foi uma trabalheira danada, pois o pente e a escova ficavam muito nojentos, com uma mistura cinza de toda essa sujeira acumulada. Meus cabelos brancos começaram a se multiplicar naquela época (obrigada, filhinha Caçula), e eu aproveitei uma ida ao salão para pintar e desistir mais uma vez do No Poo.

Até que nos primeiros dias do ano eu comecei a pensar que meu cabelo continuava caindo, que estava ressecado e mal pintado, enquanto minha bancada continuava cada vez mais cheia de produtos. Obviamente, não estava dando certo. Claro que além da água cheia de calcário da Europa e da água dessalinizada daqui do oriente médio, e da overdose de químicas durante muitos anos, também tenho a genética a meu desfavor. Na minha família, até as mulheres ficam carecas. Já estava pensando há um tempo em parar de pintar e assumir os grisalhos, e aproveitei para fazer uma resolução de ano novo e começar todo o processo de novo. A diferença dessa vez é que, provavelmente por não usar nada além de água, o processo de transição foi muito mais tranquilo. O que eu fiz? Vamos lá:

A Rotina

Depois de lavar com xampu pela última vez (xampu normal, o que tinha aqui em casa), continuei a lavar diariamente, mas só com água. Antes de entrar no banho, escovo bastante, por longos minutos, e massageio o couro cabeludo. No banho, deixo a água mais quente do que costumava, massageio, puxando o óleo para o comprimento do cabelo, e penteio com um pente fino. Tiro o excesso de água com a toalha e deixo secar naturalmente.

Mas não fede?

Nos primeiros dias, sentia um cheirinho de cachorro molhado no banho, sim. Pessoalmente, acho que essa é a parte mais difícil, a falta daquele cheirinho de xampu gostoso na hora do banho. Mas, se você massagear e escovar bastante, e enxaguar com frequência nas primeiras semanas, dificilmente vai feder. Na verdade, mesmo durante a fase de transição, acho que o cheiro é o mesmo de quando não lavamos a cabeça por dois dias. Fiz tanto o Marido como a Primogênita cheirarem meus cabelos e ambos falaram a mesma coisa: Não tem cheiro ruim, mas também não tem o cheiro bom de xampu. Não dá prá ter tudo, infelizmente.

A Transição

Durante esse período, que pode durar de 4 a 8 semanas, a situação é terrível. A raiz fica oleosa pois está acostumada a produzir bastante, e só a escovação e água não conseguem deixar do jeito que ficava. Na hora do banho, as mãos ficam com uma película de óleo do cabelo, o que não é muito agradável. Pentes e escovas precisam ser higienizados com frequência, pois fazem grande parte do trabalho que o xampu fazia antes. A boa notícia é que há uma luz no fim do túnel, e essa fase passa.

E então, vale a pena?

Acredito que sim, mas não é para qualquer um. Na prática, dá muito menos trabalho usar xampu diariamente e gastar uns segundinhos escovando do que se comprometer com o No Poo. O custo social de não cuidar bem e virar uma Maria Cascuda pode ser alto. No meu caso, valeu muito toda a trabalheira das seis semanas de transição, pois desde então meu cabelo mudou completamente. Está bonito, macio e brilhante, como nunca antes. Nunca mesmo. Antes estava poroso e cheio de frizz. Agora forma ondas suaves naturalmente. Além disso, ver todos aqueles potes de xampu e cremes substituídos por um pente e uma escova me dá uma satisfação enorme. Minha nova rotina é tão mais simples e sustentável, com menos consumismo e menos plástico e tóxicos no meu karma ambiental.  Ah, vale a pena, sim! E como!

*** Pessoal, vou desativar o blog eventualmente, mas como muita gente ainda aparece aqui para ver esses posts do Water Only, deixo aqui o link do texto para a minha página do Facebook: