Cabelos – Fase pré No Poo Raiz

Esse texto eu escrevi em 2010 ou 2011, e publiquei no meu finado blog Família Apátrida. Republico hoje aqui, editado, para ilustrar o meu passado pré No Poo Raiz.

Aviso: Esse post é extremamente fútil.

Hoje vou reclamar. Se por um lado viver em Omã me trouxe muita alegria e até paz, por outro também me trouxe um baita problema com meus cabelos. Se já não bastasse a natureza implacável despigmentando cada vez mais fios, o clima e a água de Omã terminaram por destruir as minhas madeixas (nossa, de onde eu desenterrei essa palavra?).O fato é que qualquer bate papo entre mulheres nesse país vai invariavelmente trazer queixas sobre queda, ressecamento e pontas duplas, triplas, ou múltiplas.

Os culpados são a água dessalinizada, o ar condicionado e a temperatura entre 40 e 45 graus nos meses de verão. E eu que sempre fico do lado errado das estatísticas, sou mais uma vítima espigada dessa combinação explosiva. No mercado, a Primogênita já se arrasta resignada quando percebe que estamos indo para a seção de xampu pois sabe que vai ter que esperar eu ler o rótulo de cada produto, sempre procurando alguma fórmula mágica.

Já me disseram que meu cabelo parece fiapo de manga, algodão doce amarelado e até cabelo de profissional do sexo com poucos recursos financeiros (na verdade a expressão foi “puta pobre”, mas como eu sou uma dama, prefiro usar um eufemismo).E infelizmente é verdade. Quando me olho no espelho de manhã tenho a impressão de que animais selvagens passaram a noite se acasalando na minha cabeça.

No trabalho, um colega me apelidou de Miss Sunshine. Disse que é porque eu estou sempre sorrindo, mas eu sei, EU SEI que é por causa do meu rosto redondo coroado de cabelinhos crespos sempre que eu uso rabo de cavalo, como o negativo de um eclipse. Nos bons dias o meu cabelo parece o do Bon Jovi nos anos 80, e nos clássicos ‘bad hair days’ fica com a textura da cabeleira do cientista do De Volta Para o Futuro caso ele decidisse pintar o próprio cabelo com uma tinta vencida acobreada.

Quando o Ex veio buscar a Primogênita para passear, eu pedi que ele demorasse um pouco mais pois precisava fazer umas pesquisas para o mestrado. Quando ele voltou de repente e me pegou no flagra com 3 páginas da Internet abertas sobre máscaras, cremes e técnicas de hidratação, me olhou como se tivesse acabado de descobrir que eu era uma militante secreta da Al Qaeda. “A sua pesquisa é sobre tratamento de cabelos ressecados? Não acredito. Você???” E eu até tentei pensar em alguma possível ligação entre óleo de argan e aquisição de linguagem, mas não deu certo.Mas em minha defesa, a idade e a falta de tempo me ensinaram que é muito fácil fazer desdém das frivolidades alheias quando se tem cabelos saudáveis e sedosos.

Água dessalinizada no cabelo dos outros é refresco.

No Poo Raiz – Lavando os cabelos só com água

PineappleExpress

Há 8 semanas lavei meu cabelo pela última vez com xampu. De lá prá cá, só água. Nada de cremes, condicionadores, sabão, óleos ou poções mágicas. Só água, e da torneira mesmo. Antes que vocês, queridos leitores, sintam-se felizes por estarem bem longe de mim, deixem-me explicar melhor.

A chamada técnica No Poo consiste basicamente em evitar xampus por causa dos produtos químicos, como sulfatos, parabenos e fragrâncias tóxicas. A teoria é que ao parar de lavar os cabelos com xampu, o nosso próprio organismo se ajusta e começa a produzir menos óleo. Mas infelizmente, não antes de uma chata fase de transição.

Minha primeira tentativa na onda do No Poo foi há uns 7 anos, quando me mudei para o oriente médio. Continuava com minha rotina de sempre, lavando os cabelos diariamente, até que eles espigaram e começaram a cair de um jeito absurdo (aqui o que escrevi na época sobre o assunto). Comecei a fazer o combo bicarbonato de sódio + vinagre de maça para higienizar os cabelos. Até funcionou para a limpeza, mas o vinagre era muito fedido e todo o processo era difícil – ficar esfregando bicarbonato de sódio no couro cabeludo parece tortura. Meses depois, desisti com os cabelos ainda mais destruídos.

Há quase dois anos, quando morava em Moscou, tentei novamente. Tinha ouvido falar desse método de usar só água e quis tentar. Segui os conselhos que li na internet na época e lavava duas vezes por semana, só com água, e usava talco nos outros dias, para “sugar” o óleo. De novo, foi uma trabalheira danada, pois o pente e a escova ficavam muito nojentos, com uma mistura cinza de toda essa sujeira acumulada. Meus cabelos brancos começaram a se multiplicar naquela época (obrigada, filhinha Caçula), e eu aproveitei uma ida ao salão para pintar e desistir mais uma vez do No Poo.

Até que nos primeiros dias do ano eu comecei a pensar que meu cabelo continuava caindo, que estava ressecado e mal pintado, enquanto minha bancada continuava cada vez mais cheia de produtos. Obviamente, não estava dando certo. Claro que além da água cheia de calcário da Europa e da água dessalinizada daqui do oriente médio, e da overdose de químicas durante muitos anos, também tenho a genética a meu desfavor. Na minha família, até as mulheres ficam carecas. Já estava pensando há um tempo em parar de pintar e assumir os grisalhos, e aproveitei para fazer uma resolução de ano novo e começar todo o processo de novo. A diferença dessa vez é que, provavelmente por não usar nada além de água, o processo de transição foi muito mais tranquilo. O que eu fiz? Vamos lá:

A Rotina

Depois de lavar com xampu pela última vez (xampu normal, o que tinha aqui em casa), continuei a lavar diariamente, mas só com água. Antes de entrar no banho, escovo bastante, por longos minutos, e massageio o couro cabeludo. No banho, deixo a água mais quente do que costumava, massageio, puxando o óleo para o comprimento do cabelo, e penteio com um pente fino. Tiro o excesso de água com a toalha e deixo secar naturalmente.

Mas não fede?

Nos primeiros dias, sentia um cheirinho de cachorro molhado no banho, sim. Pessoalmente, acho que essa é a parte mais difícil, a falta daquele cheirinho de xampu gostoso na hora do banho. Mas, se você massagear e escovar bastante, e enxaguar com frequência nas primeiras semanas, dificilmente vai feder. Na verdade, mesmo durante a fase de transição, acho que o cheiro é o mesmo de quando não lavamos a cabeça por dois dias. Fiz tanto o Marido como a Primogênita cheirarem meus cabelos e ambos falaram a mesma coisa: Não tem cheiro ruim, mas também não tem o cheiro bom de xampu. Não dá prá ter tudo, infelizmente.

A Transição

Durante esse período, que pode durar de 4 a 8 semanas, a situação é terrível. A raiz fica oleosa pois está acostumada a produzir bastante, e só a escovação e água não conseguem deixar do jeito que ficava. Na hora do banho, as mãos ficam com uma película de óleo do cabelo, o que não é muito agradável. Pentes e escovas precisam ser higienizados com frequência, pois fazem grande parte do trabalho que o xampu fazia antes. A boa notícia é que há uma luz no fim do túnel, e essa fase passa.

E então, vale a pena?

Acredito que sim, mas não é para qualquer um. Na prática, dá muito menos trabalho usar xampu diariamente e gastar uns segundinhos escovando do que se comprometer com o No Poo. O custo social de não cuidar bem e virar uma Maria Cascuda pode ser alto. No meu caso, valeu muito toda a trabalheira das seis semanas de transição, pois desde então meu cabelo mudou completamente. Está bonito, macio e brilhante, como nunca antes. Nunca mesmo. Antes estava poroso e cheio de frizz. Agora forma ondas suaves naturalmente. Além disso, ver todos aqueles potes de xampu e cremes substituídos por um pente e uma escova me dá uma satisfação enorme. Minha nova rotina é tão mais simples e sustentável, com menos consumismo e menos plástico e tóxicos no meu karma ambiental.  Ah, vale a pena, sim! E como!

*** Pessoal, vou desativar o blog eventualmente, mas como muita gente ainda aparece aqui para ver esses posts do Water Only, deixo aqui o link do texto para a minha página do Facebook: